Segunda, 23 de Outubro de 2017

Crônica

Leia crônica de Maria Adélia Menegazzo: "Terezas"

10 OUT 2017Por 07h:30

Um dos assuntos mais comentados dos últimos dias é a polêmica dos museus, os quais, aos olhos de alguns, tornaram-se antros de perdição. Acho engraçado. Ou melhor, absolutamente não acho nada disso. Mas o pior da história são as tentativas de se contar uma história moral da arte.

Oi? Então, agora, vamos fazer com que todos os artistas, desde o século 19, voltem para as academias de Florença, de Veneza, de Roma, de Paris! Abaixo os modernos como Picasso, Cézanne, Van Gogh, queimem a arte degenerada das vanguardas de todos os tempos!

Oi? Sério mesmo? Você se contenta com uma arte só para ser contemplada? Tudo bem. E quem não se contenta? Vai viver sem arte? Arte não pode questionar seu conforto? Só pode confirmar os limites da sua formação para a arte, se é que ela existe? Fico estarrecida!

Gente questionando artistas como Marcel Duchamp, cujo gesto de enviar um urinol para uma exposição, em 1917, mudou o sistema da Arte – Museus, Galerias, Críticos, História da Arte? Que gesto você seria capaz de fazer? Dizer que os artistas contemporâneos são ridículos?

Oi?! Que tal estudar um pouco de teoria e história da arte para fazer uma argumentação mais séria? Ou, então, ficar calado na sua santa ignorância.

Faça um favor para a humanidade, não vá a museus, não leia livros de arte e de literatura. Eu poderia apelar para Umberto Eco e retomar aquela sua opinião sobre o que as redes sociais trouxeram à tona, mas vou deixar pra lá, poderia soar agressivo demais.

A verdade é que todos têm o direito de dar opinião sobre o que quiser, mas um pouco de cuidado com o que se diz e atualização não faz mal a ninguém. Ir além do que se vê faz um bem enorme, acrescenta alguma coisa de diferente à mesmice do mundo saturado das imagens do dia a dia. Enfim. (Palavra estratégica quando se quer mudar de assunto.)

Mudemos de assunto.

Vamos falar de Tereza. Isso mesmo. Não aquela da praia, que não é de ninguém, nem aquela das crônicas do Correio, minha amiga do peito, nem da minha prima, guardiã das memórias, muito menos da Santa de Lisieux, que só merece flores.

Também não vou ajudar Jorge Ben Jor a encontrar a dele. Vamos falar de uma certa Tereza poética, que abre o último livro de Abílio de Barros. E, por que falar dela?

Talvez porque, na primeira vez que ouvi Tereza em poesia, ela tinha pernas estúpidas e a cara parecia uma perna e, mais tarde, devia mandar embora os sujeitos que dela se aproximassem e, principalmente, porque quem dizia isso era Manuel Bandeira.

As Teresas, de Bandeira, são amorosas e engraçadas. Quando li a Tereza, de Abílio, parei. Li uma primeira vez, assim que tive o livro em minhas mãos.

Fiquei com pressa de ler uma segunda vez, devagar e ritmada, como pede a leitura de bons poemas. Os cantos de espera foram escritos em 1948 e são um diálogo entre o poeta e seu objeto amoroso, no qual, em alguns momentos, não sabemos ao certo quem fala, como se o sentimento fosse tanto e tamanho que os tornasse um só.

Vou falar do livro todo na próxima crônica. Por hoje, basta ficarmos com o gosto de Tereza.

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