Quarta, 07 de Dezembro de 2016

ARTIGO

Lara Pastorello Panachuk: "Dia do Professor: Oh Captain, my Captain!"

Graduanda em Direito/UFPR

15 OUT 2016Por 02h:00

Apesar da tão propagada expressão “quem faz a escola/faculdade é o aluno”, percebe-se que a figura do professor tem importância primordial na formação e no desenvolvimento dos acadêmicos. Em breves linhas, caro leitor, realizarei alguns apontamentos na seara de Direito e Cinema, aliando ao filme A Sociedade dos Poetas Mortos algumas pinceladas do meio jurídico.

O filme A Sociedade dos Poetas Mortos (1989) traz o Professor John Keating (Robin Williams) em uma difícil missão: ensinar literatura a jovens de uma conservadora escola de Ensino Médio. Ora, o elemento complicador é, justamente, que o Professor Keating valoriza a liberdade de pensamento e de ensinamento, em vez das amarras disciplinadoras tão caras à instituição.

Dentre as diversas cenas memoráveis, destaco duas: uma em que o Professor determina aos alunos rasgarem o livro didático condicionante do estudo da poesia às resultantes de um gráfico e, posteriormente, explica-lhes que a poesia é fundamental à vida humana, por esta ser repleta de paixão; outra, na qual o Professor convida os alunos a subirem na mesa, para alterarem a perspectiva de análise, a partir de um novo ponto de vista. Keating é o guia, a partir dele os alunos vislumbram horizontes e o aclamam como capitão “Oh Captain! My Captain!” (alusão à referência do poeta Walt Whitman a Abrahan Lincoln)

A presença do professor na faculdade também é essencial (a partir daqui, caro leitor, direciono para o ensino jurídico). Um ambiente ainda tão arraigado pelos dogmas e pelas ilustres figuras já ironizadas por Joaquim Manuel de Macedo em Memórias de um Sobrinho de meu Tio: “deixando apenas boiar uma dúzia de ideias muito comuns em um dilúvio de palavras campanudas ou triviais, e faz-se de conta que são uns oradores de mão-cheia, que atiram Mirabeau de cócoras, Cícero de pernas para o ar, e Demóstenes de barriga para baixo. ” 

A pompa excessiva e a arrogância ainda são as vestimentas de alguns. Mas também se percebem contrapontos em meio às malhas de interação (como nas estruturas literárias de Huxley e Érico Veríssimo, caracterizadas pelas conversações entre os personagens). Destacarei alguns fragmentos exemplificativos sobre verdadeiros mestres (pessoas dotadas de saber e idoneidade, mesmo já tendo doutorado, pós-doutorado, etc.) 

Há os que, para enriquecimento do contexto pátrio, dialogam com o direito comparado, como ao citar o precedente norteamericano do Juiz Brandeis (Olmstead v. USA) sobre a importância dos administradores da lei criminal obedecerem a lei, pois são como professores e seus maus exemplos incitam a população a desrespeitar a lei. Há os que falam sobre as lições a serem aprendidas com as experiências internacionais, como o maxiprocesso contra mafiosos na Itália, tendo corajosos membros da Magistratura (que na Itália abrange Ministério Público e Judiciário) desafiado a Máfia e conseguido condenações contra poderosos comandantes da Cosa Nostra, em nome do Império da Lei. Há os que ressaltam a importância dos direitos constitucionalmente assegurados, como o direito de não produzir prova contra si mesmo, projeção da expressão humana com importantes vertentes, desde a mais abrangente, que inclui quaisquer condutas do acusado que possam resultar incriminatórias (como a perícia grafotécnica, para analisar se o documento redigido pode ter sido escrito pelo acusado), até a mais restrita, que se limita ao direito ao silêncio, a não produzir uma ação comunicativa.

Há os que acreditam que o processo é a realização da Justiça na forma e nos limites da Constituição e da Lei, com a supremacia do interesse público e do bem comum. Há os que incentivam os estudantes a pensar e cultivar ideias, não realizando “lavagem cerebral”, mas apresentando perspectivas e respeitando o intelecto dos acadêmicos.   

Enfim, após as explanações realizadas, desejo um futuro para o Brasil em que as pessoas vocacionadas para o Magistério (principalmente o jurídico, devido ao recorte temático adotado) consigam ingressar e manter-se nas cátedras, sendo as liberdades de pensamento e de ensinamento crítico baluartes que guiem seus passos, para que, deste modo, consigam demonstrar aos alunos quão extraordinária pode ser a vida, tal como fizera o Professor Keating. Feliz Dia do Professor, caro leitor!  

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