Domingo, 04 de Dezembro de 2016

Artigo

Julio Sampaio: "Para a sobrevivência do Pantanal, boas práticas produtivas"

27 NOV 2016Por DA REDAÇÃO00h:00

Reino das águas, assim é conhecido o Pantanal. O bioma compreende 170.500,92 km² banhados por vários rios, como o Paraguai, o Cuiabá e o Aquidauana, que no período da cheia alagam a região em 80%. Pedaços de terra sobressaem como verdadeiras ilhas, onde as pessoas vivem e concentram suas propriedades rurais, na maioria das vezes, com criação de gado. 

O rebanho bovino adaptou-se às pastagens naturais. Mesmo assim, as fazendas iniciaram o processo de mudança da cultura pecuarista tradicional e as práticas aplicadas agrediram o sensível ecossistema e provocaram a transformação no equilíbrio ecológico pantaneiro.  

Nos tempos do Brasil Colônia até o século XVIII, o desmatamento era quase nulo. Desde então, 15% do Pantanal foi alterado. É um alerta no mês que se celebra o Dia do Pantanal (12 de novembro).

O rebanho bovino brasileiro tornou-se o segundo maior do planeta (atrás da Índia) e o país assumiu a liderança como maior exportador de carne mundial. A pecuária passou a ocupar aproximadamente 20% do território brasileiro e só no estado de Mato Grosso do Sul corresponde a 21 milhões de cabeças de gado, o que significa 10% dos bovinos do país. 

Recentemente, o Living Planet Report (LPR), estudo que a Rede WWF publicou, apontou que o impacto da pecuária recai na perda da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos providos pela natureza, como água limpa, sequestro de carbono e solos saudáveis, e na ameaça à forma de vida de muitos povos indígenas e populações tradicionais.

A estimativa é que ainda haja uma crescente demanda mundial por carne. Até 2050, a demanda global por alimento deve aumentar 70% em relação ao ano 2000. Com isso, estamos diante de um desafio sem precedentes. 

Segundo o LPR, se não mudarmos a forma como produzimos alimentos e buscarmos na natureza os recursos para sustentar nosso modo de vida no planeta, a vida selvagem pode sofrer 67% de declínio, em intervalo de apenas 50 anos, como resultado destas e outras atividades humanas. 

Em acordo com este alerta uma importante discussão sobre o aprimoramento da cadeia produtiva da pecuária está sendo construída no estado do Mato Grosso do Sul. Um diálogo entre o setor produtivo e alguns pecuaristas têm aprimorado os processos produtivos com implementação de melhorias de aspectos ambientais na propriedade, por exemplo, restabelecendo a cultura pelo aproveitamento das pastagens nativas. Tudo isso sem onerar muito nos custos e insumos na produção. É a chamada pecuária sustentável que originou a criação de um protocolo de produção orgânica agregando valor adicional a carne do Pantanal. 

Esse trabalho não tem sido fácil. Contudo, é preciso engajar outros elos da cadeia de produção além do público empresarial. É fundamental discutir boas práticas produtivas, redução de impactos, redução de desperdício ou implementação de aspectos socioambientais desde a produção até o consumidor. Todos são responsáveis pela mudança, principalmente, em tempos em que a adoção de boas práticas e de conceitos de conservação e sustentabilidade passam a ser cada vez mais urgentes. 

A população também começa a questionar sobre a origem dos produtos que consomem e exigem alimentos orgânicos e socialmente sustentáveis. 

O Pantanal, assim como outras regiões no mundo, deve se desenvolver, respeitando suas aptidões e características próprias. Dada a sua importância ecológica, a maior área úmida continental do planeta depende dessa visão. Neste sentido, a pecuária sustentável atende a essa demanda, além de ser uma alternativa para a conservação da biodiversidade na região.  

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