Sábado, 29 de Abril de 2017

ARTIGO

José Carlos de Oliveira Robaldo: "Lava Jato: depuração política (!)"

Procurador de Justiça aposentado; Mestre em direito penal; Advogado e Professor Universitário

21 ABR 2017Por 02h:00

Deparei-me recentemente com uma dessas mensagens que circulam no WhatsApp, dizendo mais ou menos assim: “habito um País oculto chamado Odebrecht. Pago imposto para a Odebrecht, ando no metrô da Odebrecht, votava nos políticos da Odebrecht, tomava cerveja da Odebrecht, minha luz é da Odebrecht (...)” E resume afirmando que “para quem cantou ‘Brasil, mostre sua cara’, hoje ela apareceu”. Não apenas uma construtora, mas principalmente uma delas, pelo noticiário recorrente, comprou Presidentes, Governadores, Senadores, Deputados, Prefeitos, Conselheiros entre outros. As afirmações de Marcelo Odebrecht são de arrepiar. 

Isso tudo, infelizmente, acaba fomentando a afirmação de Charles de Gaulle de que “o Brasil não é um país sério”. O único reparo é que o problema não está no Brasil como País, mas sim nos seus dirigentes enquanto gestores. Simplesmente transformaram o País em balcão de negócios e consequentemente em cinzas! Verdadeiro exemplo de “organização criminosa qualificada”! 

O contexto está tão grave que nem mesmo o ministro Teori Zavascki, referindo-se à Operação Lava Jato, imaginou a sua extensão quando afirmou que “Você puxa uma pena e vem uma galinha”. Diríamos atualmente, “vêm muitas galinhas”.

Isso tudo, lamentavelmente, vem confirmar a afirmação do advogado do lobista Fernando Soares, Mario de Oliveira Filho, apesar das críticas que sofreu à época, de que no “Brasil não se coloca um paralelepípedo sem pagar propina”. Mesmo contrariando as generalizações, o atual contexto exige reflexão.

Não resta a menor dúvida de que a Operação Lava Jato está cercando o mundo da corrupção nos serviços públicos. A cada dia surgem mais nomes de envolvidos acompanhados de montantes de dinheiros surrupiados que a maioria da população até já perdeu a noção desse quantum. Milhões daqui bilhões dali, depósitos em contas na Suíça, joias caríssimas “adquiridas” na H. Stern etc. A única certeza que a população tem é que esses valores estão fazendo falta à saúde, à educação, à segurança pública, ao saneamento básico, aos transportes, entre outros.  

Mesmo para aqueles avessos às generalizações, a pergunta que não quer calar é se salva alguém (político ou construtora). Ou, de outra forma, quem ficará para fechar a porta? Seriamos “nós” ou “eles”? A verdade é que senão todos, a maioria está na vala comum. Lógico que entre “nós e eles” existem exceções, raríssimas, mas há.

O político vive de votos e as eleições de 2018 estão próximas. A depuração que a Lava Jato está fazendo é ótima, mas não o suficiente. A verdadeira depuração deve ser feita pelo eleitor. Com isso, a sua responsabilidade aumenta ainda mais. Cabe ao eleitor fazer a filtragem.

No momento da escolha, o eleitor deve estar atento para o fato de que não estar citado na Lava Jato não significa necessariamente que o político ou pretenso candidato também não tenha seus problemas. O eleitor consciente sabe ou deve saber quem é quem. Não raro, formalmente, não há nada envolvendo este ou aquele, contudo nos bastidores se sabe o verdadeiro contexto da pessoa. Às vezes seu nome não aparece ou por sorte ou porque seu envolvimento com o submundo do crime ainda não foi divulgado. Não se pode ignorar o velho provérbio de que onde há fumaça há fogo, ao menos na maioria das vezes!

A verdade é que a Operação Lava Jato, ao lado de outras, está deixando muitos políticos com imagens chamuscadas, ou melhor, está identificando essas máculas, o que vem os assustando!

Nesse cenário, os bons políticos vão sobreviver. Daí a importância de se combater a ideia da “lista fechada”. No atual contexto, o eleitor deve ter liberdade para escolher o candidato. E exercer bem esse direito de cidadania. 

O momento é de reflexão.

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