Quinta, 19 de Outubro de 2017

ARTIGO

Gilberto Verardo: "Tá difícil ser civilizado"

Psicólogo/Psicoterapeuta

3 OUT 2017Por 02h:00

Civilidade para mim tem a ver com capacidade de exercício de sentimentos. Não tem a ver com capacidade de consumo ou de emoções ligadas aos instintos básicos, como raiva e tesão.

A civilidade não nasce com a pessoa. Adquire-se na convivência, mas é preciso educação e disciplina, pois não é tão fácil assim domesticar os instintos primitivos ligados à sobrevivência pessoal.

No plano social, as instituições fazem a constante vigilância para seu aprimoramento, através dos valores éticos e morais, que com o passar do tempo a criança vai assimilando, entre altos e baixos. Uma minoria não consegue em razão de patologias sociais ou biológicas.

Convivendo em um grupo familiar ou social que pensa e se comporta quase da mesma maneira, fica bem mais fácil o exercício de tais valores. No entanto, quando as instituições ou mesmo a família dão mau exemplo, o que acontece com a civilidade de cada um? A porção social do comportamento perde força e importância, impelindo a pessoa a uma espécie de retorno ao ego pessoal. Às vezes, a religião ou mesmo um tarja preta resolve, temporariamente, pois a luta entre civilidade x instintos básicos é constante. 

Num mundo competitivo essa constância aumenta. Civilidade tem a ver com competição só nos esportes. Às vezes a pessoa que teve uma educação mais rígida, muito provavelmente, diante de um quadro de instabilidade de valores éticos e morais (temperos principais da civilidade), a pessoa somatiza (transfere para alguma parte do corpo esse sentimento de desorganização dos valores). Essa não é a única, mas a mais forte influência, nos dias contemporâneos, para despertar vários tipos de fúria, a qual é a antítese do sentimento de civilidade.

Por outro lado, a pressa e a ambição desmedida são componentes de algum tipo de insatisfação interna e íntima, a qual nasce de relações com pouco ou nenhum significado para a pessoa. 

Nestes tempos de mau exemplo das instituições, na qual as pessoas se miram para construírem sua identidade, a desorganização pessoal só pode ser controlada com uma educação paterna afetiva, tarja preta ou somatização. Por isso, nossos dias parecem cercados de violência gratuita, criminalidade em vários níveis e um adoecimento das pessoas e do tecido social.

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