Quarta, 22 de Novembro de 2017

OPINIÃO

Gilberto Verardo: "O ladrão de virtudes"

Psicoterapeuta

19 MAI 2017Por 01h:00

A palavra ascese (exercício das virtudes) foi emprestada da Reforma Protestante de Martin Lutero, já no início do século 16, para incorporar à concepção teórico-filosófica da Revolução Industrial. Uma das virtudes mais importantes desta concepção foi o trabalho diário, de modo a tirar o homem da ociosidade contemplativa sempre à espera de um milagre salvador, comportamento este bem característico onde a religiosidade reina absoluta, como foi na Idade Média. Assim, a Revolução Industrial elegeu o trabalho e a mão de obra remunerada como as principais ferramentas para sair do obscurantismo da Idade Média e entrar na Idade Moderna.

Com o mundo mais racional e prático, se distanciando das divindades e da contemplação, o trabalho remunerado acabou por provocar um novo tipo de milagre, agora não mais voltado para as aspirações pessoais, mas para um bem comum: a economia de mercado, que tomou o lugar de reis e príncipes. Nascia, então, um novo modelo de poder e um novo modelo de reinado: Estado. 

Cinco séculos depois, o trabalho diário e a mão de obra remunerada, que ergueram um bem comum de todos para todos, parece perder sua virtude maior (distribuir a renda) para uma virtude menor (a ganância pessoal). É como se o ser humano, depois de séculos aprendendo a viver coletivamente, entrasse em processo de regressão, querendo viver apenas no seu quadrado!?

Em nossos dias pós-moderno, em matéria no Correio do Estado (9/5/2017), o TCU revela que o Brasil perdeu R$ 169 bilhões em investimentos e corrupção entre 2015/2016, que se divididos entre os 220 milhões de brasileiros dariam a quantia de R$ 804.761,90 em serviços públicos para cada um, em um ano.
Não se sabe se foi o homem que desvirtuou a função social do dinheiro ou se foi o dinheiro que tornou a ganância pessoal exagerada uma virtude do século 21.

Tais fatos podem remeter o brasileiro (se é que já não está acontecendo) a uma nova Idade Média, na qual a ociosidade, a contemplação e a religiosidade possam ser a ferramenta, principalmente entre jovens e idosos, para provocar uma nova virtude pós-moderna – a apatia social, restando-lhe, como arma de rebeldia, refugiar-se em uma ganância vaidosa e pessoal.

A saúde do tecido social fragiliza-se, não pelos encantos da economia sempre “milagrosa”, mas por uma espécie de expressão do instinto de sobrevivência nestes tempos de aquecimento global.
É o dinheiro um ladrão de virtudes na pós-modernidade?

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