Sexta, 24 de Novembro de 2017

ARTIGO

Gilberto Verardo: "Brincando com destinos alheios"

Psicólogo e psicoterapeuta

16 MAR 2017Por 02h:00

Enquanto a vida se processa num mundo de aparências, instabilidades e incertezas para muitos, o lado invisível das coisas mundanas parece traçar os contornos de uma realidade fabricada para a conveniência de poucos. 

Acordos e fidelidades políticas e “democráticas” são traçados longe de holofotes, em labirintos que poucos adentram. Grandes negócios corporativos são realizados, entre um drink e outro, em espaços reservadíssimos. Guerras e conflitos são decididos, à custa da vida de milhares, em pequenos gabinetes.

Em um modelo político e social onde a representatividade dá a legitimidade para poucos decidirem os destinos de muitos, e, por outro lado, as legislações pós-guerra proporcionaram um excesso de privilégios para as individualidades humanas, em pleno século 21 assistimos à derrocada do BEM COMUM, apesar do incessante trabalho das instituições para o controle social dos valores relacionados com o respeito à vida e a dignidade humana. Esperava-se, é claro, que, investindo na individualidade do homem, o BEM COMUM, como consequência, seria o espelho deste ser humano moderno e educado pela ampla disseminação do conhecimento e da informação. 

Assistimos, agora, a um desconfortável equívoco. Muitas explicações surgem a cada dia. Ou é a genética a responsável ou a desigualdade econômica. Reparemos que todos os discursos explicativos ficam restritos à Causa x Efeito de fatos ou atos inconsequentes. Porém, o mal-estar psicológico ou psíquico, se preferir, apesar de invisível, influencia a realidade a tal ponto de torná-la instável, já que vem provocando um aumento gradativo de insatisfação com tal realidade fabricada e decidida por poucos e em locais invisíveis aos olhos da maioria. 

Este modelo de representatividade não consegue criar anticorpos para curar a vaidade e o egoísmo dos representantes. A representação (poder conferido) parece conter um vírus mortal para o BEM COMUM. 

Isso quer dizer que o atual sistema social está à beira de um colapso, agravado pelo aquecimento global, o qual os representantes não toleram admitir. Tanto é que, passadas quase três décadas de convenções, debates e muito bate-papo, pouca coisa de prático e exequível foi realizada por conta dos debates e das convenções.

Se, por um lado, a ampla disseminação do conhecimento e da informação tornou possível o rompimento dos limites e das dificuldades de acesso, por outro lado, sua utilização, como agente de aperfeiçoamento da agregação humana, não conseguiu romper a limitação do egocentrismo pessoal. Informação e conhecimento parecem continuar a fomentar a vaidade do individualismo em plena sociedade de massas. A esperteza pessoal substituiu a consciência social. 

O BEM COMUM, ou seja, o meio social é o lugar onde o ser humano se depara com seus limites pessoais, como também se depara com suas possibilidades de ser reconhecido e até imitado. Se o meio social se torna confuso e incerto, assim se tornará a vida de todos, de forma invisível, porém, devastadora em revelar um amanhã cheio de novas possibilidades. “O HOMEM NASCE NATURALMENTE PURO, A SOCIEDADE O CORROMPE” dizia, em tempos de iluminismo, Jean J. Rousseau.

Não resta outra pergunta que se cala nas noites maldormidas – O que fazer?

Participação em tudo que tiver relação com o BEM COMUM é um santo remédio para aumentar a sensação de pertencimento, a qual anda tão esquizofrênica nos dias contemporâneos, porém, desdenhada nos porões das individualidades representativas e egocêntricas.

Deve ser por isso que o pessoal reza mais, bebe mais e mata mais!

A pior agressão para o ser humano é torná-lo inútil (Hannah Arendt). Com este modelo representativo, tornamos as pessoas úteis ou inúteis?

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