Artigos e Opinião

ARTIGO

Felipe Dias: "O Pantanal foi esquecido no último Dia do Meio Ambiente?"

Diretor Executivo do Instituto SOS Pantanal

Redação

16/06/2017 - 02h00
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O Dia Mundial do Meio Ambiente, 05 de junho, foi instituído para que o mundo não se esqueça da importância da proteção ao Planeta. Foi uma imagem da Terra, de 1969, que revelou a fragilidade de nosso lar e chacoalhou a humanidade para os impactos negativos do desenvolvimento. Em 1972, após a primeira Conferência Mundial do Meio Ambiente, 05 de junho tornou-se a data para relembrarmos da importância da proteção ambiental. Porém, na Capital do Pantanal, Campo Grande, isso parece ter sido esquecido.  

O ponto alto de comemoração local foi a presença do ex-deputado federal Aldo Rebelo.A palestra foi promovida pelas autoridades locais no Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camillo. Rebelo é conhecido por sua atuação como relator do Projeto de Lei de n.º 12.651, que instituiu as mudanças no Código Florestal em 2012.

Essa alteração na legislação ambiental o fez um “herói” para muitos do setor agropecuário. A sua atuação como um apaziguador entre a disputa de ambientalistas, que defendiam uma lei mais severa, e a bancada ruralista, que reivindicava flexibilização, encerrou 12 anos de discussões.

A anistia às multas por desmatamento ilegal, ocorrido até 2008, é a razão do  entusiasmo de muitos produtores rurais com o Novo Código Florestal. A frase de Rebelo, “já que grande número de fazendeiros não o obedece”, ficou célebre como justificativa para o perdão. Mas a ideia de que não há punição aos crimes ambientais desencadeou uma perigosa mensagem. O aumento do desmatamento nos últimos anos é a sua consequência. 

O Atlas do Desmatamento do Pantanal 2014-2016, publicado pelo Instituto SOS Pantanal, em maio, comprovam esse avanço. Pesquisas do Instituto do Homem e Meio Ambienteda Amazônia (Imazon) e dados do próprio governo mostram que a situação é nacional. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na Mata Atlântica, o bioma mais ameaçado do Brasil, cresceu 57,7% entre 2015-2016. Os estudos do Imazon apontam que desde a aprovação do Novo Código o desmatamento na Amazônia cresceu 75%. 

O Pantanal, com o atual fluxo de destruição, em uma década estará próximo da situação crítica dos outros biomas. Desde a aprovação do Novo Código Florestal, a região perdeu de 1.909 km2 de vegetação nativa.
O Pantanal durante séculos se mantém protegido com uma atividade importante do setor rural, a pecuária. Como os pantaneiros dizem com orgulho: “O Pantanal está como está porque nós estamos aqui há mais de dois séculos”. Essa maior planície alagável do planeta, e a pecuária extensiva - que aprendeu com o vai e vem das águas a viver em harmonia a relação homem-natureza - são exemplos de que se respeitarmos as singularidades de cada ambiente a relação homem-natureza acontece em harmonia. 

O avanço do desmatamento pode pôr um fim a esse equilíbrio. A destruição das matas nas regiões de cabeceira, onde nascem os rios que formam o bioma, e a chegada das grandes lavouras de grãos são as ameaças mais sérias.

Ao vermos governo e setor produtivo aplaudindo um dos responsáveis por essa perigosa flexibilização das leis ambientais, soa-se um sinal de alerta sobre quais mensagens estamos emitindo.

 E o que esperávamos desse dia? Que o governo não se juntasse ao coro da redução à proteção, mas que debatesse como ampliá-la em regiões únicas e frágeis como o Pantanal.

A criação de uma legislação específica para o bioma seria um caminho. Prevista desde a Constituição de 1988, a Lei do Pantanal segue engavetada. Essa lei é uma esperança para que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul adotem políticas conjuntas para a região. Infelizmente, enquanto Aldo Rebelo era aplaudido no Dia do Meio Ambiente, essas questões foram esquecidas.

Artigo

Quando o jogo termina, o que permanece?

Não são os resultados. Com o passar do tempo, a memória dos números se desfaz. O que permanece são as histórias

23/07/2026 07h45

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“O essencial é invisível aos olhos”. Antoine de Saint-Exupéry, em “O Pequeno Príncipe”.

Há frases que atravessam o tempo porque continuam a nos ajudar a compreender a condição humana.
Somos fascinados pelo que pode ser medido: contamos pontos, registramos recordes, elaboramos rankings e transformamos quase tudo em indicadores de desempenho.

Aprendemos a olhar para o quantificável. No entanto, aquilo que mais nos transforma raramente aparece nas estatísticas.

Nas últimas semanas, milhões de pessoas acompanharam a Copa do Mundo. Discutimos vitórias, estratégias e eliminações. Mas, quando o torneio termina, permanece a pergunta: o que realmente levamos dessa experiência?

Não são os resultados. Com o passar do tempo, a memória dos números se desfaz. O que permanece são as histórias.

Permanecem as trajetórias de quem transformou dificuldades em força, enfrentou perdas com dignidade e revelou humildade na vitória.

Em poucos dias, pessoas de culturas e línguas diferentes deixaram de ser apenas adversárias e se tornaram próximas.

Sem perceber, e sem que houvesse uma aula, um professor ou uma prova, aprendemos a torcer por seres humanos antes de torcer por uniformes.

Existem aprendizagens que acontecem silenciosamente. Elas não cabem em certificados, mas moldam nossa empatia, nosso senso de dignidade e nossos valores, algo que nenhum discurso, por si só, conseguiria ensinar.

Essa reflexão nos leva do esporte diretamente para a educação: que experiências ajudam um ser humano a se tornar mais humano?

Durante muito tempo, concentramos esforços em definir o que as crianças deveriam aprender. O conhecimento e a excelência acadêmica continuam indispensáveis

Mas hoje, com a saturação de estímulos digitais, a grande urgência é como os estudantes constroem significado do que vivem.

A inteligência artificial responderá perguntas com rapidez cada vez maior. A informação será commodity.

Mas compreender profundamente uma experiência, emocionar-se com a história do outro e traduzir compaixão em escolhas de vida continuarão sendo tarefas estritamente humanas. É aí que a educação revela sua verdadeira grandeza.

Educar é criar oportunidades para que crianças e jovens vejam o mundo com curiosidade, sensibilidade e responsabilidade.

É ajudá-los a perceber que o aprendizado acontece em cada encontro, leitura ou projeto que amplia a compreensão sobre si e sobre o outro.

Se queremos uma sociedade mais justa, a escola precisa oferecer experiências que despertem essas qualidades. 
 

Saint-Exupéry nos ensinou que o essencial é invisível aos olhos. Talvez o papel da escola seja ajudar nossos estudantes a reconhecer esse essencial e transformá-lo em atitude.

Afinal, não é o placar que muda uma vida, são os significados que construímos a partir das experiências que vivemos.

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Nova fisionomia da administração pública

Redimensionar a estrutura do Estado, conferindo-lhe dimensão adequada para a obtenção de eficácia, significa mudar comportamentos tradicionais, racionalizar a estrutura de autoridade

23/07/2026 07h30

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Quem se der ao exercício de contemplar a fisionomia nacional vai se deparar com imensos contrastes. Há ilhas de excelência no meio de territórios feudais; há avanços de tecnologia de ponta ao lado de muralhas do passado; na própria seara da administração pública, uma burocracia altamente profissionalizada convive com largas fatias do mandonismo político, a denotar o esforço de uns para olhar adiante sob o solavanco de outros que teimam em olhar para trás.

Por conseguinte, se há uma reforma que pode ser chamada de mãe de todas as outras, antes mesmo da área política, como normalmente se tem propagado, é a reforma do modelo de operação do Estado.

Redimensionar a estrutura do Estado, conferindo-lhe dimensão adequada para a obtenção de eficácia, significa mudar comportamentos tradicionais, racionalizar a estrutura de autoridade, reformular métodos e, ainda, substituir critérios subjetivos e ancorados no fisiologismo por sistemas de desempenho.

A meritocracia é o instrumento adequado para oxigenar, qualificar e expandir a produtividade na administração. As levas de indicações partidárias acabam contribuindo para inchar estruturas, expandir a inércia e as teias de interesses escusos.

A proposta começa com a substituição de milhares de cargos comissionados por uma carreira de Estado, à semelhança do que existe em sistemas parlamentaristas, nos quais quadros permanentes, qualificados e motivados são imunes às crises políticas. Mudam-se os dirigentes, mas as equipes continuam comandando a gestão pública.

Os males da administração pública advêm da errática mentalidade de seus ocupantes, para quem o modus operandi deve espelhar a visão (caolha ou fisiológica), e não as necessidades sociais.

Consideram-se donos do pedaço que lhes coube na partilha do poder, não se sujeitando à ordem do mercado nem às leis da livre concorrência, como ocorre na iniciativa privada.

Da burocracia comprometida com o mérito deverão ser cobrados resultados dentro de metas preestabelecidas, reconhecendo-se as qualidades de cada perfil e implantando um modelo de premiação e promoção para motivar as equipes. Não será tarefa fácil alterar a fisionomia da administração pública.

O atual sistema de loteamento faz parte da velha cultura patrimonialista, que permeia as três instâncias federativas.

Parte-se do princípio de que o governante, ao chegar ao poder, como forma de garantir as condições de governabilidade, terá de repartir espaços de ministérios e autarquias pelos partidos, de acordo com o tamanho e a influência de cada ente. Como mudar tal sistemática sem ferir brios e perder apoio no Congresso?

Desenvolver áreas de formação, reciclagem e aperfeiçoamento de recursos humanos, voltadas para a operação do Estado, deve ser prioridade.

Essas ideias parecem consensuais entre grupos de bom senso da própria administração pública. E por que não se aplicam? Por assimetria à lógica da organização do poder no Brasil.

Como se sabe, quem dá o tom é a orquestra patrimonialista, para onde os integrantes são indicados pelos senhores do mando.

O círculo vicioso da política gira mudando figuras e mandos, mas não o sistema. Há poucas brechas para se avançar. Mas é possível, sob pressão intensa da sociedade, fazer fluir oxigênio novo.

Quando ideias transformadas em projetos chegam ao Congresso sob o empuxo social, ganham repercussão e acabam entrando em pauta.

Foi assim que ocorreu com situações que caracterizam o ingresso do Brasil na modernidade: a pesquisa com células-tronco, a aprovação do projeto Ficha Limpa e a Lei Maria da Penha, contra a violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras.

Acontece que assuntos áridos como as reformas do Estado, tributária e política só vão adiante caso recebam a atenção do centro do poder.

Ou mobilizem os partidos. Só dessa forma a roda viciosa da política poderá jogar a reforma do Estado na mesa do mandatário.

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