Terça, 19 de Setembro de 2017

ARTIGO

Fausto Matto Grosso: "O poder do dinheiro"

Engenheiro civil, membro da Direção Nacional do PPS

17 MAR 2017Por 02h:00

De repente, fez-se a luz: o poder está corrompido, o rei está nu. O Petrolão e a Lava Jato acabaram revelando o que quase todo mundo, a não ser os muito distraídos, já sabia e fazia de conta que nada existia. 

Emílio Odebrecht, o pai, candidamente, disse que desde o tempo do avô era comum destinar dinheiro para eleição dos políticos e para os partidos. Disse mais: que a diretriz da empresa era não doar para nenhum ou dar para todos os concorrentes. Aí revela-se muito da essência da relação do capital com o poder, a amoralidade. 

Se somos obrigados a concordar que “sempre foi assim”, temos de enxergar que, nas últimas décadas, esse processo foi exacerbado e tornou-se determinante nos projetos de poder dos grandes partidos. 

É bom ter em conta, também, que estamos tratando até agora quase somente das empreiteiras, nem chegamos aos bancos privados e públicos, aos frigoríficos e outros grandes financiadores regionais.
Surge nessas horas a dialética do ovo e da galinha. Quem é o corrupto e quem é o corruptor. O círculo da promiscuidade é fechado. Depois de tantas décadas, naturaliza-se e perde-se a ponta. Minha aposta é que o capital, pela sua lógica, é o elemento proativo que corrompe a política e se apropria do Estado em interesse próprio, criando interesse recíproco com os políticos. A Lava Jato pode ajudar a quebrar esse círculo de ferro.

As implicações políticas da amplitude das denúncias da lista do Janot quebram a lógica perversa do “costumeiro” e do “sempre foi assim”.  Deputados, senadores e outros políticos, como enxames de marimbondos acossados por fogo, buscam desesperadamente a sobrevivência, às custas de expedientes acintosos ou disfarçados. Fala-se em separar joio do trigo e em anistia para limpar os “pequenos malfeitos”. 

Projetos são urdidos principalmente para anistiar o caixa 2 dos políticos e dos partidos, usados nas campanhas. O caixa 2 é um dos mais graves crimes políticos, principalmente pela sua natureza de fraude no processo da disputa eleitoral, atentando contra a democracia e contra a República. Essas iniciativas podem surgir, inclusive nos dispositivos a serem votados na reforma política em discussão no Congresso e que já envolvem o Executivo e o Judiciário. Todo o cuidado é pouco contra essas espertezas e a melhor defesa é ampliar, cada vez mais, a pressão da opinião pública.

Para quem acompanha o processo eleitoral, essa situação perversa não é novidade. Quando se fala em candidaturas, as primeiras perguntas que são feitas é quem vai bancar quem em relação às despesas de campanha. As listas de candidatos para os legislativos e coligações são feitas em torno das candidaturas majoritárias – principalmente dos partidos maiores –, as principais mobilizadoras de recursos, seja por já controlarem governos ou por sua viabilidade de vir a tê-los, com capacidade de retribuir, futuramente, as ajudas recebidas. 

Fica transparente, também, que o problema da moralidade política não está apenas na proliferação de legendas de aluguel, mas principalmente nos maiores partidos que controlam o poder real.

Essa lógica perversa impede a disputa limpa, republicana e democrática, em torno de programas, opiniões e ideias, e tem ampliado o descrédito na política, exacerbado nos últimos tempos, gerando a crise da representação. 

Saídas para essa situação não são simples, constituem  os principais desafios da democracia brasileira. O sistema eleitoral e partidário tem de ser remontado, sem espertezas, para que se recupere a confiança na democracia. É necessário saber quem financia quem, é preciso restringir radicalmente os gastos de campanhas, torná-los mais transparentes e controláveis.

Mas não falemos apenas do passado e do presente. Novo processo eleitoral, o de 2018, já começa a ser montado e merece ser acompanhado com a visão crítica que a Lava Jato está propiciando à opinião pública. É preciso dizer sonoro “não” às farsas eleitorais.

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