Quarta, 07 de Dezembro de 2016

CORREIO DO ESTADO

Editorial desta segunda-feira: "Vendendo o peixe"

17 OUT 2016Por DA REDAÇÃO02h:00

É cedo para acreditar nesse quadro colorido pintado pelo presidente Temer, principalmente quando os números divulgados mostram um longo caminho pela frente.

Em discurso feito durante a reunião do Brics (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), o presidente da República Michel Temer fez questão de enfatizar que o país começa a “entrar nos trilhos”. De acordo com ele, as previsões para a economia em 2017 e que já é possível verificar “positiva  reversão de perspectivas”. Obviamente, Temer estava vendendo o peixe brasileiro, para colher frutos futuros de negociações, de olho em investidores. Porém, ainda é cedo para acreditar nesse quadro colorido pintado pelo presidente Temer, principalmente quando os números divulgados mostram um longo caminho pela frente.

  Relatório divulgado pela agência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Comércio prevê aumento de investimento estrangeiro nos países do Brics, algo em torno de 10% este ano. A fatia maior deve ser direcionada para China e Índia, enquanto o Brasil disputa o que sobrar do bolo com os outros países. Os recursos seriam destinados a atividades produtivas, fusões e aquisições de empresas e empréstimos entre matrizes e filiais. Por isso, a importância do marketing do governo federal em “emplcar o país”, já que hoje é visto como um dos mais imprevisíveis do bloco.

 A estratégia, por enquanto, está baseada em números questionáveis. Alguns quesitos princiapais para o desenvolvimento ainda estão em falta no Brasil: não há gastos do governo, não há consumo ou índices extremamente favoráveis para a exportações. O nível de endividamento do país é considerado preocupante pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), um dos órgãos citados por Temer na reunião para exemplificar porcentuais positivos. No início do mês, a dívida pública havia alcançado 73% do PIB, o que impede o governo de ter margem de manobra para medidas econômicas. Também por isso, a urgência e o grande interesse em aprovar a Proposta de Emenda Constitucional 241, mas que esbarra na forte oposição e nas críticas ao projeto, em que os contrários dizem que pode ter efeitos devastadores para investimentos na saúde e educação.

Investimentos estrangeiros diretos pressupõem o crescimento da capacidade produtiva nacional. Em consequência, retomada industrial, geração de empregos, de renda e de consumo. Apesar da economia claudicante, o Brasil é visto com interesse, estando entre os “10 mais” para executivos de multinacionais, de olho nas pechinchas que podem angariar por aqui. Hoje, os índices cantados por Temer ainda estão mais no campo da expectativa do que na realidade. Dados divulgados na última semana mostram que há 11,6 milhões de desempregados. O nível de endividamento das famílias ainda está em ascensão e, no início de outubro, atingiu 58% das famílias brasileiras.  Aqui em Campo Grande, conforme publicação feita com exclusividade pelo Correio do Estado, o comprometimento da renda com contas chegou a 56% das famílias. Mesmo com freio nos gastos, ainda é reflexo dos juros altos que consumem os ganhos. Para 2017, FMI estima piora na previsão do desemprego, apesar de acreditar que haverá melhora nos próximos meses. A boa e a má notícia vão andar lado a lado por um bom tempo no País.

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