Quinta, 08 de Dezembro de 2016

CORREIO DO ESTADO

Editorial desta segunda-feira: "Faltou o 'fio do bigode'"

28 NOV 2016Por 03h:00

Vemos todos os dias exemplos de políticos que mudam descaradamente o discurso, justificam-se que foram mal interpretados.

Havia um tempo que os negócios eram fechados no “fio do bigode”, uma antiga expressão que precedia até a existência de assinatura no contrato.

De origem controversa, significava que aquele fio valia tanto quanto a palavra; valia a honra de quem estava empenhando, literalmente, parte tão respeitável e obrigatória no rosto de um cavalheiro.

Passados os anos, o termo caiu em desuso, mas o teor dele deveria manter-se intacto. Não é o que acontece. Vemos todos os dias exemplos de políticos que mudam descaradamente o discurso, justificam-se que foram mal interpretados e que aquilo que foi dito não era para ser levado exatamente ao pé da letra. Assim agiu o prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal, ao tratar do aumento do transporte coletivo.

Há semanas, um dos principais questionamentos feitos ao alcaide é sobre o reajuste da tarifa, hoje fixado em R$ 3,25. A resposta era genérica, mas lógica: está sendo negociado com o consórcio Guaicurus e discutido via Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados (Agereg).

Especulava-se que o Executivo autorizasse a correção inflacionária dos últimos doze meses, o que elevaria o valor para R$ 3,55. A reportagem do Correio do Estado perguntou especificamente sobre isso, mas Bernal preferiu fazer jogo de palavras, dizendo que não haveria aumento, mesmo quando questionado sobre inflação.

Esquivou-se para não ser honesto com a população. Porém, no último dia 21, reunião entre a equipe de transição do prefeito eleito Marquinhos Trad e a da prefeitura, a discussão parecia encaminhar-se para pacificar a questão, já que teria sido acertado o congelamento. Pelo menos era o que se supunha.

Três dias depois, Bernal muda o discurso: “Eu nunca disse que congelaria a tarifa, disse que trabalharia para não aumentar o preço da tarifa”. A informação pegou até a equipe de Marquinhos surpresa,  pois havia outro entendimento sobre o assunto.

Conceder a correção inflacionária, a rigor e tecnicamente, não é aumento. É realinhamento dos gastos, levando-se em conta a elevação dos custos e a realidade econômica. 

Porém, para a população que vem sofrendo os dissabores da crise, significa, na prática, um desembolso maior na já enfraquecida economia familiar. O prefeito omitiu-se, preferiu se valer de subterfúgios (correção/aumento) para criar cortina de fumaça.

Se o discurso adotado desde o início fosse o de aplicar o índice inflacionário, embora penoso para usuários do sistema, seguiria a lógica da economia e o razoável. Mas não se pode esperar outra atitude de um prefeito que só trouxe transtorno e caos a Campo Grande. No apagar das luzes, reforça a pecha de ser mais afeto a distúrbios do que a harmonia.

A relação turbulenta com a Câmara de Vereadores e a precariedade em que a cidade está mergulhada são resultado dessa bipolaridade administrativa.

Há pouco mais de um mês para o fim do mandato, é difícil encontrar algum aspecto positivo na gestão, marcada pela animosidade com Legislativo e na estagnação no desenvolvimento de Campo Grande. Que o novo ano chegue logo, com as mudanças que precisam ser feitas e serão bem-vindas. 

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