Quarta, 26 de Abril de 2017

OPINIÃO

Douglas Elemar: "Mulher no volante, preconceito distante!"

Professor e mestrando em Filosofia pela UFMS

16 MAR 2017Por 01h:00

“Mulher no volante, perigo constante!” Quem nunca ouviu essa frase?  Eu, homem que sou, ouço-a desde pequenino. E o perigo de ouvir certas coisas desde pequeno é você crescer achando que o que ouviu é verdadeiro. Mas a vida, verdadeiro laboratório de erros e acertos, serve justamente para isso: pôr à prova coisas que se ouvem desde pequeno. 

Na semana em que se comemorava o Dia Internacional da Mulher, eu tive uma prova dessas – não que eu acreditasse nesse lugar-comum, “mulher no volante, perigo constante”, estúpido preconceito e erro mental, mas o fato que narrarei serviu como um tapa na cara com luva de pelica.

Era um sábado, meio-dia. E, como diria o velho Machado, “o sol estava a pino e o calor era de rachar passarinho”. Eu acabara de sair de uma valiosa reunião com professores e a direção de uma escola em que dou aulas de Filosofia e Sociologia para estudantes do Ensino Médio. Saio da escola, entro no carro e dou a partida. O telefone toca, era meu pai.

“Filho, me encontra aqui do lado de casa”. Meu pai, advogado aposentado, chamava-me para bebermos uma cerveja na conveniência que acabara de abrir ao lado da casa em que moramos. Presente também estava um tio meu, que, além de tio, é meu padrinho; ou seja, era eu à mesa com dois pais ao redor, o biológico e o voluntário. Conversávamos sobre coisas diversas. De repente, uma carreta gigante, um monstro motorizado, com placa de Cáceres, para ao lado da conveniência. A porta do motorista se abre. No banco do motorista, uma mulher com seus 30 anos, cabelos negros (como asa da graúna), shortinho jeans, blusa preta e, na boca, um rubro batom. 

Na hora, ficamos tão embasbacados como um gringo que visita o Pantanal pela primeira vez. A rotina colocaria ali um homem, 50 anos, rústico como um toco de curupaí, chapéu e bermudão jeans. Mas a rotina é traiçoeira. 

Ali estava uma mulher, exemplo mor de feminilidade. A impressão primeira era de que havia algo fora do lugar. “Como assim?”, perguntávamos dentro do nosso mais recôndito e profundo espanto (ou preconceito?). “Uma mulher? Na boleia de um caminhão?” – forçoso será dizer: doeu-nos o orgulho da costela removida.

Tudo foi muito rápido. Só deu tempo mesmo de ouvir a pergunta que ela nos fez. Queria saber onde ficava determinada rua. Dissemos onde ficava e como chegar. Ela agradeceu e fechou a porta do caminhão. Desceu rua abaixo levantando poeira. 

Os comentários foram inevitáveis. No fundo da nossa alma, chegávamos ao entendimento de uma frase que um escritor famoso dissera à época do atentado contra o World Trade Center: “Aquilo era real, mas não era crível”. O espanto se deu tão somente porque a experiência confrontou-nos com algo diferente daquilo que fomos induzidos a acreditar, a saber: mulher e direção não combinam. Mas o que não combina é o preconceito, o lugar-comum dos enunciados, que nada ensinam e só deturpam.

À parte a diferença entre o que se ouve e o que se vê, foi maravilhosamente divino ver uma mulher sentada à frente de um caminhão, símbolo mor da brutalidade e força, seguindo por esse Brasil de meu Deus. 

E como a vida gosta de esfregar em nossa cara, momentos depois passou uma outra mulher num carro. Mulher negra, professora guerreira. Era a diretora da escola onde dou aula. Acenei para ela. Ela olhou para mim, me reconheceu, levantou o braço esquerdo e acenou de volta.

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