Quarta, 22 de Novembro de 2017

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial deste sábado/domingo:
"Salve-se quem puder"

4 NOV 2017Por 03h:00

Nas ruas da capital de Mato Grosso do Sul, atualmente, a única lei que impera é a 
do mais forte, ou a do mais rápido.

O desprezo das autoridades pelo ordenamento do trânsito de Campo Grande nos últimos anos foi extremamente nocivo não só para motoristas e pedestres, mas para toda a cidade. Onde há ausência do poder público, o caos se instala. Nas ruas da capital de Mato Grosso do Sul, atualmente, a única lei que impera é a do mais forte, ou do mais rápido. Só sobrevive quem tem cuidado redobrado ao dirigir em meio à desordem ou atravessar a rua. 

Os que circulam pelas vias públicas da cidade sabem que, aos poucos, elas foram perdendo qualquer referencial de que as leis de trânsito ainda existem. O primeiro fator que incentivou a ação dos transgressores foi o abandono de toda a sinalização horizontal e de parte da vertical, a partir de 2013. Na maioria das ruas e avenidas, os condutores não sabem qual faixa de rolamento seguir, porque elas não existem. Pinturas para orientar a preferencial são uma raridade. Aliás, nos últimos quatro anos, quem tem preferência na malha viária campo-grandense são os inúmeros buracos.

Há quase um ano que todos os radares e lombadas eletrônicas foram desligados. Esse desfalque na fiscalização permitiu que o abuso da alta velocidade e o desrespeito à sinalização semafórica se transformassem em regra, enquanto que a cautela e a prudência fossem relegadas à exceção. Infelizmente. 

O local onde o carro da advogada Carolina Albuquerque Machado, 24 anos, foi atingido em cheio por uma caminhonete em alta velocidade conduzida por João Pedro da Silva Miranda Jorge, 23, na Avenida Afonso Pena, na madrugada do dia 2, fica ao lado de um radar desativado. Se o equipamento eletrônico estivesse em operação, talvez faria com que Carolina – que morreu no local – não avançasse o sinal vermelho e que João Pedro não abusasse da alta velocidade. Mesmo se o radar não conseguisse evitar o acidente, pelo menos poderia contribuir com registros fotográficos do ocorrido.

Para completar o “salve-se quem puder” em que se tornou o trânsito de Campo Grande, as fiscalizações que ainda existem concentram-se no período diurno: quando a quantidade de motoristas bêbados e infratores é bem menor. Quando há blitze durante a noite, dificilmente vão além das 22h. A Guarda Civil Municipal, outra força com poder de polícia, que poderia ajudar o Batalhão de Trânsito (BPTran) na fiscalização, só atua perto da região central, timidamente.

Um trânsito bem sinalizado, com policiais e equipamentos eletrônicos de fiscalização, aumenta o respeito não só às leis criadas para motoristas e pedestres, mas inibe a criminalidade em geral. Em ambiente em que as regras são cumpridas, as transgressões tornam-se mais difíceis de ocorrer. Uma melhor infraestrutura também pode levar à economia de recursos na área da saúde, pois uma eventual redução de acidentes diminuiria a demanda dos superlotados hospitais.

 

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