Sábado, 18 de Novembro de 2017

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial deste sábado/domingo: "Batalha desigual"

16 SET 2017Por 03h:00

Com o atual efetivo, é impossível que as investigações acompanhem o ritmo dos traficantes, que buscam novas rotas e estratégias.

Policiais federais deflagraram ontem mais uma operação para combate ao tráfico de drogas. Ao mesmo tempo em que atuam nas apurações dos crimes cometidos por essa quadrilha, outras equipes investigam contrabando de cigarros, fraudes na previdência ou em empréstimos com agência bancária, falsidade eleitoral e uma gama interminável de casos de corrupção, em que organizações criminosas usam os mais diversos artifícios para desviar recursos públicos. Esse é apenas um breve resumo de investidas policiais deflagradas no decorrer desta semana no País. A infinidade de denúncias e de irregularidades que continuam sendo cometidas evidencia o desafio gigantesco em atender à demanda, contando com efetivo defasado e investimentos inferiores aos que as organizações criminosas fazem para continuar mantendo suas atuações ilícitas. Uma batalha desigual, resultante de uma negligência que prejudica todos os brasileiros. 

Os méritos da Lava Jato, por exemplo, são indiscutíveis. A operação, com participação de policiais federais e do Ministério Público Federal, desmontou esquema de corrupção que envolvia políticos e empresários, desfalcando os cofres públicos por meio de contratos superfaturados com grandes empreiteiras ou com a Petrobras, que teve seu patrimônio dilacerado pelas repetidas irregularidades. Agora, a mais nova faceta foram os escândalos revelados pela delação premiada dos executivos da JBS. Nessa mesma linha, outras ações contra corrupção vêm auxiliando no combate à impunidade ou para desmitificar a ideia outrora existente de que políticos jamais iriam para a cadeia. Agora, muitos deles temem ser os próximos a acordarem com o cumprimento de mandados de prisão na porta de casa. 

A atuação dos policiais federais é mais ampla. Com o atual efetivo, é impossível que as investigações acompanhem o ritmo dos traficantes, que buscam novas rotas e estratégias para ingressar no País com cocaína, maconha e armas trazidas do Paraguai e Bolívia. Assim, inquéritos arrastam-se durante anos para que as equipes consigam monitorar, organizar e coletar provas suficientes para incriminar o máximo de envolvidos possível. A ideia é chegar ao chefe das quadrilhas, mas nem sempre esse objetivo é alcançado. Muitos casos param apenas no condutor flagrado transportando a droga, sem jamais descobrir a rede do tráfico que existe por trás desse crime. É o caso, por exemplo, dos 704 quilos de cocaína apreendidos, ainda em 2014, em caminhão-tanque na região de Paranaíba. Difícil acreditar que se trata de ilegalidade pontual, considerando a quantidade de droga encontrada. 

Há necessidade urgente de abrir concurso público e contratar mais policiais federais, pois há uma sobrecarga de trabalho insuportável, que acaba prejudicando investigações e comprometendo trabalho que ajudaria a reduzir consideravelmente os índices de violência em todo o País. Hoje, as denúncias empilham-se cada vez mais e as apurações acabam sendo demoradas ou incompletas em razão do excesso de atribuições. Os resultados obtidos em meio a tantas dificuldades mostram os pontos positivos desse investimento, para que ao menos haja mais chances de vencer a batalha no combate à criminalidade.
 

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