Quarta, 07 de Dezembro de 2016

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial deste sábado: "As duas faces do tráfico"

26 NOV 2016Por 03h:00

A facilidade para transportar drogas nas rodovias é causadora da violência, e o extermínio de vidas  no bairro Danúbio Azul, é consequência disso.

A ação de traficantes de entorpecentes foi duas vezes manchete nesta semana no Correio do Estado. Na primeira, na última terça-feira, mostramos a liberdade para ir e vir dos traficantes. Diariamente, quantidades consideráveis de drogas são apreendidas nas barreiras policiais, e muito provavelmente, por causa da falta de investimento em ações de segurança na fronteira, um volume muito maior de drogas passa pelos bloqueios (quando eles existem) e chegam a seus destinos.

A quadrilha do Bairro Danúbio Azul, que a Polícia Civil atribui seu comando a Luiz Alvez Martins Filho, o Nando, é um destes destinos das drogas que saem da Bolívia e Paraguai. Antes de ser apontado como suspeito do assassinato de pelo menos 13 pessoas, Nando era, antes de tudo, um dos traficantes deste bairro localizado na região Norte de Campo Grande, na saída para Cuiabá.

A facilidade para transportar maconha e cocaína nas rodovias brasileiras é uma das grandes causadoras da violência em todo o país. O exemplo do Bairro Danúbio Azul, da Capital, cabe perfeitamente nos morros do Rio de Janeiro (SP), ou nas grandes favelas paulistanas. Em algumas regiões, sobretudo naquelas onde o Estado não está presente, quem manda são os traficantes. Eles fazem sua própria justiça, e utilizam para punir seus desafetos, os piores critérios possíveis.

Entre as vítimas do grupo de extermínio estão usuários de drogas, cuja vida foi moeda de pagamento pelo entorpecente fornecido pela quadrilha; garotas de programa, ora aliadas, ora traidoras dos criminosos; adolescentes, que chegaram a atuar como revendedores para a quadrilha, e que depois tentaram deixar a criminalidade e ainda desafetos de Nando, que de alguma forma, desafiavam seu controle no bairro, exercido por meio coação, intimidação e chantagem, que geram muito medo e terror.

A atuação da quadrilha de Nando só foi possível por causa da omissão do estado, e pela indiferença de parte da sociedade com o paradeiro das vítimas. Para a grande maioria, muitos dos mortos não faziam falta. Porém, para o poder público, que deve tratar todos com igualdade, todos as vidas devem ter muita importância.

O grupo agia há pelo menos cinco anos no bairro. Durante todo este período, as regras impostas por Nando, tiveram vigência parelela às leis formais que (em tese) valem para todos. Conforme a comunidade relatou à nossa equipe de reportagem, na maioria das vezes, as ordens do traficante, por causa do medo propagado, eram obedecidas antes das leis.

Atualmente Nando está preso, mas ainda não há certeza de que seu pequeno “reinado” naquele bairro da Capital deixou de existir. O cemitério criado por ele e seus comparsas para esconder os desaparecidos (muitos deles nunca reclamados) ainda deve ter ossos e corpos. Das 13 supostas vítimas, somente sete tiveram seus restos mortais localizados.

Estas duas faces do tráfico de drogas denotam uma realidade única: a omissão do poder público tem feito com que ele perca o controle de algumas áreas, e que milhares de vidas sejam exterminadas nesta roda viva da criminalidade.
 

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