Domingo, 04 de Dezembro de 2016

Correio do Estado

Confira o editorial deste domingo:
Ensino na emergência

16 OUT 2016Por 03h:00

Qual a qualidade na formação dos  futuros profissionais em um hospital sucateado? A crise econômica piorou a situação, mas não  é a única responsável pelo  caos...

A precariedade em escolas públicas pelo País pode chocar: há flagrantes extremos, em que alunos dividem pequenos espaços e cadeiras nas salas de aulas, professores são obrigados a trabalhar sem o material mínimo, como quadro e giz, itens hoje até ultrapassados para poucas e abastadas instituições de ensino. O que já é temeroso no setor da Educação, ganha contornos nefastos na Saúde. Transporte essa fragilidade no sistema para hospitais e unidades de atendimento público e o cenário é de agonia e morte lenta. 

Nas escolas da saúde, os chamados hospitais universitários, a precariedade é a mesma. Deveriam ser considerados parte fundamental na formação do médico e de outros profissionais de saúde, mas enfrentam obstáculos praticamente intransponíveis para atender os objetivos educacionais e de local para pesquisas na área. É, na realidade, espelho da rede  pública de atendimento, com fechamento de leitos, falta de material e excesso de demanda sobrecarregam profissionais e residentes, que se deparam desde cedo com a decadente realidade do sistema público. Em Campo Grande, o HU, na teoria, é descrito como instituição referência em procedimentos de alta complexidade, cirurgia cardiovascular, hemodiálise e neurologia. Na prática, não foge à regra das deficiências conhecidas. Qual a qualidade na formação dos  futuros profissionais em um hospital sucateado? A crise econômica piorou a situação, mas não  é a única responsável pelo  caos que tornou-se rotina nessas instituições, há anos.

O modelo de gestão pública está defasado e não oferece soluções para os entraves  do sistema em operação. A cada dia, nos deparamos com notícias que exemplificam o colapso do sistema de saúde. Na última quarta-feira, levantamento do Correio do Estado mostra que há, pelo menos, 160 investigações em andamento na 32ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, que apuram fatos graves, como falta de leitos, medicamentos, exames, insumos e profissionais. Para se ter dimensão da débil estrutura, todas as 85 unidades de saúde da cidade, entre unidades básicas, centros regionais e unidades de pronto atendimento são alvos de algum tipo de inquérito.

Estudos apontam que a situação tende a piorar. Com aumento da crise, muitas pessoas não tiveram condições de manter o plano de saúde e, assim, engrossaram a fila de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Para as instituições, a balança fica mais pesada de um lado, com aumento da demanda de pacientes no setor público, e leve de outra, com a diminuição de receita que vinha dos atendimentos particulares.  A resposta do governo federal para os entraves é a polêmica Proposta de Emenda Constitucional 241, em tramitação no Congresso Nacional. O remédio é considerado amargo por oposicionistas de Michel Temer.

O temor, sem trocadilhos, é que sejam realizados cortes, como no financiamento do SUS ou do Fies, no caso da educação. As medidas não mudam o sistema. O custeio da saúde da população e do ensino dos profissionais da área continuam à beira do precipício.

Leia Também