Segunda, 23 de Outubro de 2017

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta terça-feira:
"Medo e intolerância"

3 OUT 2017Por 03h:00

A intolerância não pode predominar e, por isso, as reflexões estendem-se além do desarmamento, restrições a estrangeiros ou fiscalizações policiais.

O mundo volta a ficar estarrecido com  atirador que matou ao menos 50 pessoas, durante festival de música country próximo ao cassino Mandalay Bay, em Las Vegas (EUA). Tragédias com ações semelhantes têm se tornado cada vez mais frequentes e, na maioria das vezes, são protagonizadas por grupos terroristas. No caso, porém, ainda se tentava conhecer o perfil do atirador que, aparentemente, teria agido sozinho. O Estado Islâmico já reivindicou a autoria do ataque, alegando que o autor, Stephen Paddock, teria se convertido ao islã alguns meses atrás; o FBI ainda não encontrou indícios dessa conexão. A intolerância e o ódio alcançam níveis incompreensíveis, inimagináveis e deixam na sociedade sensação de medo. Às autoridades de segurança fica a incapacidade diante da impossibilidade de conter ou monitorar ameaças que, até então, eram desconhecidas.

O presidente Donald Trump explorou muito em sua campanha a necessidade de os Estados Unidos livrarem-se das ameaças externas. Enfatizou as ações planejadas para ampliar a proteção, com restrições a imigrantes, principalmente das nações muçulmanas. Tanto que algumas medidas começaram a vigorar ainda na metade deste ano, provocando polêmica. Uma das propostas mais recentes, de senadores republicanos, reduziria o número de imigrantes legais nos EUA em 40% no primeiro ano e em 50% em uma década. Agora, o país se vê diante de uma “ameaça interna”, com o ataque cometido por um americano de 64 anos.

O debate assume outro viés, retomando discussões sobre as políticas para comprar armas nos Estados Unidos, onde a legislação permite o porte. O autor estava com mais de dez fuzis e efetuou os disparos do 32º andar de um hotel, onde, em seguida, cometeu suicídio. Discussão que também se torna relevante no Brasil. Projeto apresentado em agosto no Senado prevê um plebiscito para consultar a população sobre a revogação do Estatuto do Desarmamento. A lei, de 2003, limitou a comercialização e o porte de armas de fogo. Hoje, mesmo com as normas proibitivas, o controle sobre as armas em território nacional é extremamente falho. Só neste ano, a polícia do Rio já apreendeu pelo menos 300 fuzis, o que expõe a falta de fiscalização. Assim, temos de acompanhar também tragédias por aqui, como a recente guerra nas favelas, disputas violentas na fronteira ou os assassinatos em diferentes estados.

Os massacres não se limitam à territorialidade onde ocorreram. São, obviamente, classificados como atos de insanidade, mas refletem o cotidiano de ódio e o desrespeito que se repete na sociedade. Expõem a fragilidade de valores que precisam ser resgatados e relações de convivência que estão cada vez mais fragilizadas. A competência e responsabilidades extrapolam as atribuições do poder público. A intolerância não pode predominar e, por isso, as reflexões estendem-se além do desarmamento, das restrições aos estrangeiros ou fiscalizações policiais. Avançam para a conscientização sobre o papel de cada um para tentar melhorar a vida em sociedade. É preciso reencontrar o equilíbrio para que não tenhamos de conviver com a insegurança constante e o sentimento de que estamos todos vulneráveis.

 

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