Segunda, 26 de Setembro de 2016

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta sexta-feira: "Segurança fragilizada"

23 SET 2016Por 03h:00

As perspectivas de investimentos na segurança, quase que em sua totalidade, dependem do apoio do Governo Federal, atolado em demandas de gestores... 

No cotidiano, fica mais evidente o descontrole que ocorre atualmente no setor de segurança em Mato Grosso do Sul. Assaltos frequentes, domínio do tráfico de drogas além da região fronteiriça,  detentos de facções criminosas que organizam rebeliões e comandam os presídios e, mais recentemente, sistema de registros de ocorrências inoperante, o que prejudicou durante dias o acesso a dados importantes para ajudar a elucidar crimes. Diante desse quadro preocupante, tem se tornado cada vez mais difícil acreditar em avanços nesse setor, a despeito do que havia sido prometido no período eleitoral. Hoje, as perspectivas, quase que em sua totalidade, dependem do apoio do Governo Federal, atolado em demandas de gestores que ameaçam até decretar calamidade em razão da recessão econômica. Inevitável a constação, portanto, que muitos planos podem ser frustrados. 

    Ontem, mais um caso demonstrou a ousadia dos criminosos. Armados com fuzis e pistolas, quatro homens invadiram o Hospital Adventista do Pênfigo, na saída para Sidrolândia, em Campo Grande, e resgataram o preso Mário Márcio Oliveira dos Santos, 31 anos. Dois policiais que faziam a escolta foram rendidos. Os bandidos usavam um carro roubado, que foi abandonado pouco depois, na região do Coophavila 2. Uma ação planejada, pois o detento tinha consulta agendada. Há uma série de medidas que precisam ser repensadas para evitar a repetição desses absurdos. Primeiro, a data do exame poderia ser mantida sob sigilo, apenas com informações repassadas aos responsáveis pela escolta e agentes penitenciários. Segundo, reforçar o número de policiais para esse acompanhamento, considerando que o detento já tinha histórico de fuga e é apontado como integrante da facção Primeiro Comando da Capital (PCC). 

    Irônico que, num completo disparate, o fato de o detento integrar facção já não se tornou motivo para preocupações. Tornaram-se exceções os presos que não estão ligados a esses grupos, responsáveis por organizar motins ou comandar assaltos usando, livremente, seu celulares de dentro das unidades prisionais. Ainda no mês passado, dois detentos morreram em rebelião que destruiu parte do presídio de segurança máxima em Naviraí. Depois, 52 envolvidos foram levados a outras unidades, paliativo para tentar controlar, momentaneamente, o colapso. Depois disso, protestos foram organizados, varreduras foram feitas em várias cadeias do Estado e, como sempre, objetos proibidos, principalmente celulares, foram encontrados. Os problemas continuarão porque esse tipo de ação preventiva deveria ser rotineira e continua a ser anunciada como algo extraordinário. 

    Em outra ironia, os presídios continuam a ser denominados de “segurança máxima”, em total contradição com os motins, domínio dos presos ou com fugas, como a que ocorreu no dia 19 de agosto, quando dois detentos escaparam da Máxima (?) da Capital utilizando uma corda feita com pedaços de pano e pularam o muro. Reflexo da falta de efetivo, do baixo investimento e também da superlotação das unidades. As cadeias estão sobrecarregadas com a quantidade de traficantes detidos porque aliaram-se a quadrilhas que usam, constantemente, Mato Grosso do Sul como porta de entrada para maconha, cocaína e armas distribuídas ao restante do País. 

    Não se discute que a União esteja negligenciando sua responsabilidade de melhorar o policiamento na fronteira com Paraguai e Bolívia. Esse descaso, porém, não pode servir como justificativa para a displicência em aperfeiçoar a segurança dentro das cidades, responsabilidade do Estado. Os criminosos conhecem hoje as fragilidades da segurança e, cada vez mais, aproveitam essas lacunas. 
 

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