Segunda, 25 de Setembro de 2017

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quinta-feira: "Transtornos e contribuições"

14 SET 2017Por 03h:00

A falta de foco tem feito apurações importantes se dissiparem diante da inconsistência de provas.

Seria utopia, ou até mesmo falta de conhecimento, crer que todas as unidades de saúde de Campo Grande contarão com pediatras todos os dias. A escala nunca fica completa e pais já sabem que encontrarão esses profissionais apenas em determinados postos. Por isso, é plausível a pretensão da prefeitura de centralizar os plantões desses especialistas em quatro Unidades de Pronto Atendimento Médico (UPAs). A ideia é contemplar todas as regiões da cidade: Coronel Antonino, Vila Almeida, Leblon e Universitário. Hoje, temos explicitamente estruturas ociosas porque não contam com profissionais suficientes. Situação que exemplifica o desperdício de dinheiro público para manter esses prédios ou até mesmo com o gasto já contabilizado para construção.

Historicamente, a quantidade de pediatras é incompatível com a demanda de pacientes em Campo Grande. Assim, já aconteceram diversas situações em que os pais tiveram de peregrinar em busca de especialista. A proposta nem chegou a ser finalizada e ainda está em fase de negociação, mas já se tornou alvo de inquérito no Ministério Público Estadual. Surpreendem, neste aspecto, as interferências exageradas e desnecessárias em questões inerentes às atribuições do Executivo. Quantidade absurda e desproporcional de investigações é aberta para recomendar e até acionar a Justiça, caso algumas normas sejam descumpridas. Sem dúvida, há obrigação institucional de defender interesses sociais, mas não podem ocorrer discrepâncias nem cobranças desconexas com a realidade.

Impressiona, por exemplo, que as exigências atuais não levam em consideração as omissões cometidas pela gestão anterior. Os moradores acompanharam a paralisação de obras, suspensão do serviço de tapa-buraco, falta de medicamentos e até de itens básicos para realização de exames. As negligências explícitas prejudicaram consideravelmente a população, mas, em total contrassenso, os questionamentos foram em quantidade inferior à enxurrada de cobranças vivenciada atualmente. Talvez, o excesso de procedimentos abertos acaba prejudicando a conclusão das investigações e apurações mais contundentes, com efeitos práticos. Infelizmente, a falta de foco tem feito apurações importantes se dissiparem diante da inconsistência de provas. Veja o exemplo da Coffee Break, envolvendo diversos políticos, que até agora não resultou em punições.

A mais nova cobrança é para que, dentro de 90 dias, a prefeitura retome as obras de pavimentação do corredor de transporte coletivo do Bairro Taquaral Bosque. Houve, sem dúvida, falta de planejamento para que esse e tantos outros investimentos tivessem de ser interrompidos porque não havia previsão orçamentária. Mas há de se ponderar que hoje persistem as dificuldades financeiras para conseguir dinheiro suficiente para todas as pendências herdadas, além das dívidas que corroboram para agravar a situação calamitosa dos cofres públicos.

Há necessidade de fiscalizar ações, contratos e eventuais erros ou irregularidades que os gestores cometerem, mas a sobreposição de competências pode ter efeito perverso e causa mais transtornos do que contribuições. 
 

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