Sábado, 18 de Novembro de 2017

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quinta-feira: "Desleixo atrai mosquito"

9 NOV 2017Por 03h:00

É inconcebível que, quase dois anos depois da última epidemia de dengue em Campo Grande, o risco de ela se repetir exista.

A julgar pelos números do Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti (Liraa), Campo Grande está prestes a enfrentar neste verão uma nova epidemia das doenças causadas pelo mosquito. Ao menos dois terços do perímetro urbano do município (66%) estão infestados pelo vetor de doenças como dengue, zika, febre chikungunya, entre outras. Número altíssimo e alarmante, conforme indica reportagem publicada na edição de ontem.

A realidade apresentada por este estudo, organizado pela Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau), é ainda mais reveladora. O resultado da pesquisa é um atestado de incompetência dos que tinham e têm a responsabilidade de cuidar deste problema desde o verão 2015/2016, período em que a capital de Mato Grosso do Sul teve uma das piores epidemias das doenças causadas pelo mosquito Aedes aegypti de toda sua história, com dezenas de mortos e dezenas de milhares de casos.

É inconcebível que, quase dois anos depois, o risco de uma nova epidemia exista. Sobretudo, porque o discurso durante o auge da contaminação por doenças como dengue, zika e chikungunya era de que as ações preventivas aumentariam, de modo a evitar mortes e internações. De fato, foram só mais discursos. Quase nada de prático foi feito no período para impedir o retorno destas mazelas.

Em época de epidemia, o poder público organizou mutirões para limpar terrenos, fiscais saíram em operação de guerra para multar proprietários de imóveis que serviam de criadouro para o mosquito, crianças falaram de dengue nas escolas e campanhas educativas se espalharam por todos os lados. Só em época de epidemia. Estas ações não tiveram continuidade, conforme foi prometido. 

Passados dois anos de um verão de unidades de saúde lotadas, em que foi necessário o Exército Brasileiro montar hospital de campanha para atender as vítimas do Aedes aegypti, tudo voltou a ser como antes da epidemia. São incontáveis os terrenos baldios repletos de mato e lixo e as casas desocupadas, cheias de criadouros do mosquito. Aparentemente, também são incontáveis, mas por serem quase invisíveis, os fiscais da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Gestão Urbana (Semadur), pois o problema verificado na última epidemia persiste. Ou os fiscais estão mais lenientes, ou os proprietários de imóveis que foram multados se importaram muito pouco com as notificações.

As epidemias de dengue – e agora de zika e chikungunya – são cíclicas, mas não por causa da forma como o mosquito age e se reproduz ou das condições climáticas; as mazelas vão e voltam porque as pessoas não fazem o dever de casa. Em um ambiente de pouca fiscalização contra quem polui, a limpeza urbana é deixada em segundo plano. A má educação das pessoas que jogam lixo em qualquer lugar, somada ao quase inexistente rigor no cumprimento das regras de urbanismo, dá nisso: epidemias que ocorrem de dois em dois anos. 
 

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