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CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quinta-feira: "Aquário: o fim do feitiço"

Confira o editorial desta quinta-feira: "Aquário: o fim do feitiço"

Redação

23/11/2017 - 03h00
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Entusiasta do Aquário do Pantanal ou não, o morador de Campo Grande que passa pela Avenida Afonso Pena e vê a obra abandonada lamenta por não vê-la concluída.

O contrato para a construção do Aquário do Pantanal, firmado em 2011 entre a Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul) e a empreiteira Egelte, foi rescindido ontem (leia mais sobre o assunto em reportagem nesta edição). Tal notícia, que em um primeiro momento pode soar como mais um entrave para a conclusão do megaempreendimento, tem tudo para ser, na verdade, o ato que faltava para que a obra seja concluída de vez.

O momento para discutir a necessidade da construção do Aquário do Pantanal já passou há muito tempo, apesar de alguns ainda insistirem em temas como o uso dos recursos destinados a ele em outras áreas, e considerar o empreendimento desnecessário. Com mais de 80% da obra concluída, o mais saudável para os cofres públicos, e também para a cidade de Campo Grande e o Estado de Mato Grosso do Sul, é que o Centro de Pesquisa e de Reabilitação da Ictiofauna Pantaneira (nome oficial do aquário) fique pronto logo.

Foram três anos de muita espera, desentendimentos financeiros entre governo de Mato Grosso do Sul e a Egelte, além de um terceiro envolvido, a Proteco, empreiteira subcontratada em 2014, e que no ano seguinte foi alvo da Operação Lama Asfáltica da Polícia Federal. Investigação que desidratou esta última empresa, cujos proprietários são suspeitos de cometer vários crimes, e travou de vez a obra, que já seguia em ritmo lento.

Projeto ambicioso, de construir o maior aquário de água doce do planeta, e ainda com a pretensão de tornar-se a principal atração turística de Campo Grande e da Região Centro-Oeste, o Aquário do Pantanal sempre sofreu com a torcida contrária. Seja por seu alto custo, ou mesmo por não gostarem da ideia. Certamente, toda a repercussão e polêmica gerada pela iniciativa atrapalharam e muito sua conclusão. Houvesse convergência e unanimidade quanto a sua construção, o empreendimento já estaria pronto.

Entusiasta do aquário ou não, o campo-grandense, que passa pela Avenida Afonso Pena e vê a obra abandonada dentro do Parque das Nações Indígenas, lamenta por não vê-la concluída. O aquário já custou muito aos cofres públicos: aproximadamente R$ 170 milhões, e não deve ficar pronto por menos de R$ 71 milhões, conforme indica orçamento recente elaborado pela Agesul. No entanto, deixá-lo abandonado como está é criar mais um monumento ao desperdício de recursos públicos.

Ainda que seja uma obra inacabada, o Aquário do Pantanal existe, e o momento é de ter boa vontade com o empreendimento. A rescisão de contrato com a Egelte poderá representar um sinal de que, enfim, ele poderá ficar pronto e, no futuro, gerar receita para o Estado e o município.

Que os gestores que conduzirão a nova licitação para o Aquário do Pantanal conduzam a execução da obra assim como o médico Ricardo Ayache faz com os empreendimentos da Caixa de Assistência dos Servidores Públicos de Mato Grosso do Sul (Cassems) no Estado. A julgar pelos modernos e elogiados hospitais de Campo Grande e Corumbá da instituição, talvez Ayache seria um dos poucos capazes de dar ao aquário a beleza e o status que ele merece. Que isto sirva de exemplo. 
 

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Todo líder tem um martelo

Todo líder tem um martelo: o comportamento que o levou ao topo e que, justamente por ter funcionado, passa a ser usado para tudo

29/10/2026 07h20

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Recentemente, a União Europeia convidou o Canadá a se tornar seu primeiro “membro associado”. Há dois anos, a ideia soaria absurda.

O Canadá sempre foi o aliado mais próximo dos Estados Unidos, com quase US$ 900 bilhões em comércio por ano entre os dois países. O que mudou no caminho não foi a geografia. Foi a liderança. E a lição vale para muito além da geopolítica.

Todo líder tem um martelo: o comportamento que o levou ao topo e que, justamente por ter funcionado, passa a ser usado para tudo. O problema é que liderança é contingencial, e nenhum estilo é bom em si mesmo.

Gosto de pensar em um “U” invertido: na dose certa e no contexto certo, um estilo é eficaz; em falta ou em excesso, deixa de funcionar. E há dois jeitos de cair da curva: exagerar a dose ou aplicá-la no contexto errado. O caso canadense tem os dois.

A pressão máxima de Donald Trump rendeu concessões em várias mesas de negociação, e negar isso seria desonesto. Mas o mesmo martelo foi usado contra o vizinho e aliado. Tarifas, ameaças e a sugestão de transformar o Canadá no “51º estado” não produziram submissão. Produziram desconfiança.

Segundo o Pew Research Center, 59% dos canadenses passaram a ver os EUA como a maior ameaça ao país, contra 20% em 2019, ainda que a maioria os considere o principal aliado.

Viraram um mal necessário. Em pesquisa do instituto Angus Reid, mais canadenses disseram que os EUA deveriam ser tratados como ameaça do que a China.

O martelo também criou o seu antagonista. No início de 2025, o Partido Liberal do Canadá estava cerca de 20 pontos atrás nas pesquisas e Mark Carney era o azarão.

À medida que Trump transformava aliados em adversários, Carney cresceu defendendo a soberania do país e foi eleito.

Desde então, combina firmeza com a construção paciente de alianças. O Canadá não rompeu com os EUA, apenas aprendeu a depender menos deles. E Carney virou uma das vozes mais ouvidas do Ocidente.

Por que é tão difícil trocar de ferramenta? Porque comportamentos recompensados no passado tendem a se repetir, mesmo quando o contexto muda.

Quanto mais um estilo funcionou, mais difícil é perceber que ele passou do ponto. Diante da primeira resistência, o instinto não é mudar de ferramenta, é bater mais forte.

As empresas conhecem bem esse ciclo. O executivo que espreme fornecedores ganha margem no trimestre e, anos depois, vê a inovação desses parceiros ir parar no concorrente.

E vale o inverso: o líder conciliador demais evita conflitos até o problema adiado virar crise. O erro não está no estilo, está em não perceber quando ele deixou de servir.

Em ano de eleição no Brasil, vale levar essa lente para além das empresas. A pergunta mais útil sobre qualquer líder, de qualquer lado, não é se ele é duro ou conciliador, é se ele sabe ler o contexto e dosar a resposta ou se só tem um martelo.

É também a pergunta que cada um de nós deveria se fazer antes da próxima reunião difícil: estou escolhendo a ferramenta certa ou só batendo com mais força?

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A morte lenta do lucro presumido

Os dados mais recentes apontam que, entre as empresas não optantes do Simples Nacional, cerca de 85% adotam este regime

29/10/2026 07h15

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O regime do lucro presumido ainda corresponde a cerca de 20% a 30% da arrecadação total dos tributos sobre o lucro (IRPJ e CSLL), conforme os relatórios de 2026 da Receita Federal.

Os dados mais recentes apontam que, entre as empresas não optantes do Simples Nacional, cerca de 85% adotam este regime.

O lucro presumido consiste, em essência, na aplicação de uma margem de presunção de lucro prevista em lei sobre a receita bruta, conforme a atividade econômica.

Costuma-se dizer que este regime, criado em 1995, foi fundamental para a formalização de diversos setores da economia brasileira.

A simplicidade, que é uma de suas características, beneficia tanto as empresas como a Receita Federal.

Enquanto, no lucro presumido, basta verificar a receita bruta para a apuração dos tributos sobre o lucro, no lucro real, as autoridades fiscais devem verificar a dedutibilidade de custos e despesas.

Após quase três décadas, o Brasil se distanciou do cenário de 1995. A parcela de empresas na informalidade reduziu e os diversos avanços tecnológicos permitem à Receita Federal fiscalizar de forma automática.

Neste cenário, a utilidade de um regime presumido se torna mais reduzida.

Diversas mudanças legislativas recentes tendem a reduzir a importância deste regime para a economia brasileira.

No fim do ano passado, houve majoração de 10% das margens de presunção de lucro sobre a parcela do faturamento anual que exceder R$ 5 milhões.

Com a instituição da tributação mínima para as pessoas que auferem altas rendas, com efeitos em 2026, o regime do lucro presumido pode implicar tributação adicional de 10% sobre os lucros e dividendos distribuídos por empresa brasileira.

A reforma tributária do consumo extinguirá, a partir de 2027, o PIS/Cofins, eliminando uma das principais justificativas para a opção pelo lucro presumido: o regime cumulativo desses tributos. O novo IVA valerá indistintamente para lucro presumido e real.

Há, ainda, outros fatores indiretos que minam a relevância deste regime, como a ausência de atualização do limite de faturamento para a sua opção, mantido em R$ 78 milhões desde 2013, e o cenário socioeconômico atual, com Selic elevada e aprovação do fim da escala 6x1 pressionando despesas.

Considerados em conjunto, todos esses elementos podem levar a uma migração do lucro presumido para o lucro real já em 2027.

Não se nega que o lucro presumido manterá a sua utilidade como forma simplificada de apuração de tributos sobre o lucro.

No entanto, as justificativas que antes o fundamentavam já não estão presentes, ao menos com a mesma intensidade.

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