Artigos e Opinião

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quarta-feira: "Tragédias repetidas"

Confira o editorial desta quarta-feira: "Tragédias repetidas"

Redação

15/06/2016 - 03h00
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É preciso cautela e responsabilidade para que as negociações avancem com o devido amparo legal. Caso contrário, estaremos à mercê da desordem.

Propriedades rurais voltam a ser palco de conflitos em Mato Grosso do Sul, que, infelizmente, resultaram em mortos e feridos. Repete-se o enredo de outras disputas: índios ocupam determinada área, sob a justificativa de tratar-se de território indígena. Os produtores tentam defender a fazenda, com a alegação de terem comprado e investido no local. Não será fácil chegar a um consenso, pois tratam-se de visões completamente controversas. O certo, porém, é que há necessidade de pôr fim à desordem que, a cada ano, vem fazendo vítimas em nosso Estado. Algo extremamente preocupante. As disputas por terra são históricas, na mesma proporção da negligência do Governo Federal em tentar apresentar soluções que, ao menos, minimizem as possibilidades de novas disputas no Estado. 

    Até hoje, as propostas da União não avançaram além do patamar de meras intenções. E, diante da inércia, as comunidades indígenas acabam agindo para tentar garantir o que consideram ser seu direito. Tivemos aqui diversas visitas de ministros da Justiça, mas tudo não passou de “turismo”. Diante das turbulências no campo político em Brasília - com as denúncias da Lava Jato e afastamento da presidente Dilma Rousseff em processo de impeachment - a questão das terras indígenas acabou relegada a segundo, terceiro ou até quarto plano. Foram esquecidas e sequer mencionadas durante a posse do presidente interino Michel Temer, que destacou as resoluções no campo econômico, para superar a crise, como suas prioridades. 

    Enfim, não se sabe hoje o que está sendo avaliado para tentar destinar mais espaços aos indígenas, indenizando devidamente os produtores. Ainda em maio de 2013, o índio Oziel Gabriel foi morto durante reintegração de posse na Fazenda Buriti, em Sidrolândia. Depois de tanto tempo, as negociações para indenização dos proprietários dos 15 mil hectares ainda não avançaram. Outro palco de conflito foi fazenda no município de Antônio João, no ano passado. Pouco depois, duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) foram instauradas na Assembleia Legislativa: uma delas, do Genocídio, para apurar violência contra indígenas; outra para investigar incentivos do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) às invasões. Relatórios foram entregues, um deles inocentando o Estado de omissão nos casos e outro incriminando o Conselho. Entretanto, na prática, não houve qualquer alteração nas situações que resultam em conflito. 

    Obviamente, não teremos soluções a curto prazo. Entretanto, nos casos elencados acima, temos problemas que se arrastam há anos sem perspectivas. A Fundação Nacional do Índio (Funai) iniciou estudos intermináveis sobre possíveis áreas que seriam territórios indígenas, criando especulações antes de qualquer confirmação. É o que existe, por exemplo, em relação a fazenda no município de Caarapó, invadida no fim de semana e palco de confronto ontem, que resultou na morte de um índio e até em criança ferida. É preciso cautela e responsabilidade para que as negociações avancem com o devido amparo legal. Caso contrário, estaremos à mercê da desordem e dos paliativos da Força Nacional, que chega aos locais somente depois que tragédias já aconteceram. Infelizmente, vidas estão sendo perdidas com a leniência e negligência da União em relação aos conflitos por terra.  

 

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Dinheiro não basta para uma longevidade completa

Saúde e qualidade de vida: ter recursos para acessar os melhores planos de saúde é um privilégio, mas o verdadeiro ativo de longevidade é a funcionalidade do corpo

06/04/2026 07h45

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A preparação financeira deve ser, sim, um dos pilares de sustentação para quem busca uma transição segura para o pós-carreira. Considerar gastos futuros, prever os impactos inflacionários e estruturar um fluxo de caixa que suporte o estilo de vida desejado continua sendo a base de qualquer plano de acumulação e previdência.

No entanto, após décadas analisando riscos, percebo que o caminho para uma longevidade plena não pode ser limitado a uma única cifra bancária. O sucesso financeiro, isolado, é insuficiente para garantir relevância e bem-estar após os 50 anos ou 60 anos.

Muitos executivos e profissionais chegam ao topo da pirâmide corporativa com um patrimônio sólido e meticulosamente planejado, mas, quando retiram o crachá, enfrentam uma lacuna existencial.

Existem dimensões que fogem ao controle das planilhas de investimentos e que têm um impacto direto na saúde e na percepção de valor próprio. Para uma longevidade dita completa, precisamos falar sobre a gestão de outros ativos fundamentais.

Saúde e qualidade de vida: ter recursos para acessar os melhores planos de saúde é um privilégio, mas o verdadeiro ativo de longevidade é a funcionalidade do corpo. Alimentação e exercícios físicos durante a vida e na maturidade são uma questão de autonomia.

Conforme as diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda-se de 150 minutos a 300 minutos de atividade física aeróbica moderada ou 75 minutos a 150 minutos de atividade vigorosa por semana para adultos e idosos.

Sem saúde funcional, o patrimônio financeiro torna-se apenas um fundo de reserva para remediar perdas, em vez de financiar experiências e novas vivências.

Socialização e networking: cultivar amizades e conexões fora do ambiente de trabalho deve ser um exercício constante ao longo da vida. Quando as companhias sociais são baseadas somente no ambiente corporativo, muitos indivíduos perdem sua principal rede de conexões ao deixar a empresa.

Um estudo da Universidade da Carolina do Norte aponta que relações sociais sólidas na longevidade reduzem os riscos de hipertensão e isolamento, além de estimular a memória.

Na longevidade, o networking deixa de ser prioritário para fechar negócios, mas colabora para sustentar a identidade e a vitalidade cognitiva.

Propósito e hobbies: ocupar a mente com atividades prazerosas, espiritualidade e novos projetos. Em muitos casos, inclusive, hobbies e propósitos podem até se transformar em fontes de renda, além da realização pessoal.

No meu caso, por exemplo, mesmo no pós-carreira, sigo envolvido com temas ligados à economia prateada e longevidade. Além do ambiente de negócios, participo de palestras, podcasts e projetos sociais conectados a esse universo.

Também não desperdiço as oportunidades de velejar com mais frequência, meu hobbie preferido, em que junto a família e amigos.

Esse tipo de envolvimento é essencial para preservar o senso de utilidade e pertencimento, além de manter a pessoa contemporânea, ou seja, ativa e conectada com o mundo atual. Isso ajuda a evitar aquela sensação de obsolescência, que pode ser perigosa quando alimentada.

O dinheiro pode proporcionar a liberdade do tempo, mas é o propósito que dá significado a esse tempo. Com o equilíbrio certo, o planejamento para o pós-carreira se torna uma nova fase de vitalidade e realização.

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Perestroika tropical

A Venezuela deixou de ser um laboratório de resistência ideológica para se tornar o epicentro de um experimento de sobrevivência pragmática

06/04/2026 07h30

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Se o Estreito de Ormuz retém hoje o fôlego da geopolítica global, o Palácio de Miraflores exige um olhar muito mais cirúrgico. Ali, testemunhamos uma metamorfose estrutural profunda: a saída de Nicolás Maduro e a ascensão de Delcy Rodríguez.

A Venezuela deixou de ser um laboratório de resistência ideológica para se tornar o epicentro de um experimento de sobrevivência pragmática. Delcy é a arquiteta de uma “normalização autoritária” que desafia as leituras convencionais da diplomacia regional.

A demissão de Vladimir Padrino López do Ministério da Defesa e de Samuel Moncada da Embaixada nas Nações Unidas é o marco zero desta era. Ao remover a ponte entre o chavismo originário, as Forças Armadas e a diplomacia, os irmãos Rodríguez – Delcy e Jorge – consolidam um controle civil repressivo, substituindo a lealdade ideológica por uma tecnocrática.

O regime transmutou-se de monolito militar em corporação política. É a “Perestroika tropical”: uma reestruturação econômica desenhada para garantir a longevidade do grupo no poder, sem nenhuma concessão à transparência política.

A mudança mais radical reside na nova Lei de Hidrocarbonetos. Ao permitir que petroleiras estrangeiras operem com controle majoritário, Delcy transformou a PDVSA em um ativo de segurança nacional para potências externas.

É o “capitalismo de Estado” como escudo humano diplomático. Para o governo Trump, o realismo energético carrega o potencial de distensão.

O petróleo fluindo com eficiência é a moeda de troca pelo silêncio internacional sobre o ainda deficit democrático interno, mesmo que esteja em processo de distensionamento.

A geopolítica venezuelana migrou do dogmático “eixo da resistência” para um pragmático “eixo da conveniência”. À China, mesmo que mais distante, Delcy oferece ordem operacional e previsibilidade de pagamentos. Paralelamente, os laços com Cuba e Irã sofreram uma mutação fria, com o subsídio ideológico cedendo espaço à eficiência pura.

Havana agora é tratada como uma prestadora de serviços em declínio, enquanto a presença iraniana se enfraquece para sinalizar ao Ocidente a disposição do regime em mitigar influências indesejadas em troca de reconhecimento.

O triângulo com os EUA é estritamente transacional. Washington tende a preferir uma Venezuela estável e aberta a negócios do que uma democracia incerta.

Assim, a libertação seletiva de prisioneiros políticos funciona como válvula de escape diplomática para arrefecer pressões sem que os Rodríguez renunciem ao controle absoluto.

A inovação de Delcy é o descarte da estética revolucionária em favor da gerencial. Ela compreendeu que a comunidade internacional, exausta de crises, aceita um autoritarismo funcional.

Para o Brasil e a região, o desafio é complexo: lidamos com uma liderança que domina as ferramentas da política global. Delcy criou um ambiente onde o custo de derrubar o regime é maior do que o de mantê-lo.

Se estabilizar a inflação e a produção petrolífera em 2026, ela terá inventado a autocracia do século 21: aquela que não se isola, mas convida o mundo para ser sócio da sua própria permanência.

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