Terça, 27 de Setembro de 2016

CORREIO DO ESTADO

Confira o editorial desta quarta-feira: "Lista de escândalos"

21 SET 2016Por 03h:00

 Se todas as apurações dessem mesmo o resultado pretendido pelos investigadores, várias celas já estariam cheias, mas até agora não foram obtidas provas suficientes para isso.

Mais uma vez, os campo-grandenses acompanham operação sobre irregularidades envolvendo a gestão pública em Campo Grande. Ontem, foi preso o procurador da Câmara da Capital André Scaff, que foi secretário municipal de Planejamento, Finanças e Controle, durante a gestão de Gilmar Olarte, que também está detido. Ele é suspeito, vamos repetir, suspeito, de receber propina para renovar contratos na época que esteve a frente da pasta. Em maio, já tinha sido alvo da primeira etapa da operação, com a suspeita de enriquecimento ilícito. Diante de ações dessa proporção, espera-se, obviamente, que existam provas suficientes para comprovar as ilegalidades, ao contrário de outras operações que renderam muito barulho e escândalos sem resultados concretos justamente por falhas nas apurações.

    Causa estranheza, o pedido de prisão preventiva, que só pode ser decretada dentro de alguns requisitos fundamentados no Código de Processo Penal. É preciso garantir a ordem pública e econômica, impedindo que o acusado cometa os mesmos crimes. Também justificaria o pedido evitar que o réu atrapalhasse o processo ou evitar uma eventual fuga. Não ficou claro quais desses itens foram considerados no pedido feito pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) e concedido pela Justiça. Tampouco, detalharam o envolvimento da esposa dele, Karina Mauro Scaff, também detida. Isso porque Scaff continuava trabalhando na Câmara e não teria mais ligações com a secretaria municipal, considerando que o comando da prefeitura voltou para Alcides Bernal. As prisões de esposas, como ocorre agora e em outros casos, são incompreensíveis e teme-se que venha sendo estratégia para obter  depoimentos sobre algo que nem se sabe se existe,  uma forma de chantagem  ou tortura dos tempos atuais. 

    Ainda, 22 pessoas, incluindo vereadores e empresários, foram intimadas a depor. Novamenter, cria-se incertezas sobre possíveis envolvimentos e o risco de julgamentos prévios, devido a exposição antecipada relacionando nomes a supostas irregularidades. Foi justamente o que aconteceu em relação à Operação Coffee Break. O Ministério Público Estadual denunciou vereadores à Justiça por suposto esquema para compra de votos na cassação do mandato de Bernal. As milhares de páginas foram consideradas inconsistentes e vazias pelos advogados de defesa dos investigados. As críticas ganharam força porque até o Tribunal de Justiça enxergou essa fragilidade de argumentos, o que motivou o desembargador Luiz Cláudio Bonassini a pedir juntada de novos documentos. A poucos dias das eleições, o prejuízo foi gigantesco e até mesmo irremediável. Uma condenação prévia, sem julgamento final e sem chance de defesa nas mesmas proporções. 

    Certamente, as irregularidades precisam ser punidas, os envolvidos condenados e presos, caso todos os crimes sejam comprovados. Preocupa, porém, que neste ímpeto de investigar e tentar comprovar ilegalidades (por mais que, em alguns casos elas estejam quase evidentes), algumas etapas estejam sendo puladas. Abre-se precedente perigoso e uma ameaça, principalmente àqueles que se dispõem a exercer cargos públicos. Neste ano, os sul-mato-grossenses depararam-se ainda com outros escândalos, a exemplo da Lama Asfáltica com seus vários desdobramentos, prisões e solturas num intervalo de poucas semanas. Se todas as apurações dessem mesmo o resultado pretendido pelos investigadores, várias celas já estariam cheias, mas até agora não foram obtidas provas suficientes para isso. 

    É inevitável que novos escândalos corroborem para aumentar o clima de instabilidade principalmente no meio político. Espera-se, porém, que não repitam-se casos em que se faz muito barulho, sem resultados concretos, com prisões desnecessárias ou julgamentos prévios.  

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