Quinta, 23 de Novembro de 2017

OPINIÃO

Carlos Lopes dos Santos: "Os jovens, o desodorante e a dor excessiva em todos nós"

Advogado

25 OUT 2017Por 01h:00

Embora se repita no mundo com muita frequência a toda hora e em todo lugar, pode-se afirmar, sem nenhuma sombra de erro, que nenhuma DOR é igual por mais semelhante que possa parecer. A dor, quem a sente, sua intensidade e forma, assim como os sentimentos que vivem na alma só são transparentes e conhecidas de fato ao seu possuidor. Jean- Baptiste Poquelin, conhecido como Molière, grande dramaturgo francês da comédia satírica, retrucou raivoso aos médicos que lhe queriam explicar o significado da dor que sentia ao estar doente: “o alto saber de vós médicos é pura quimera. Não podeis imaginar a dor que me desespera”.

Qualquer um de nós, meros mortais, pode confirmar isso. Quando perdemos para a morte um ente querido, ou quando nós ou um amigo, parente próximo ou qualquer pessoa que conhecemos se acomete de um grande sofrimento físico provocado por uma grave doença ou acidente, queremos fazer o máximo para estancar o sofrimento, mas sempre resta o sentimento de que diante da situação tudo parece inútil.

 A procura da cura ou diminuição da dor física vem sendo perseguida desde o ano 7000 a.C. De lá para os dias de hoje, as ervas medicinais, a acupuntura, o ópio, a anestesia, o éter, o clorofórmio e até a cocaína e por último, os agentes químicos, elétricos e eletrônicos, entre tantos, vêm sendo usados no combate à dor física. E a dor psicológica, tão importante quanto à dor física, o que existe para atenuá-la?

Aqui, não é minha intenção elaborar qualquer tese sobre a dor física ou psicológica, mesmo porque não sou expert no assunto, mas insisto na questão: e a dor psíquica? O que temos de fato para combatê-la? Com todo respeito aos estudiosos da área, acho que quase nada eficiente existe nesse sentido, dada a sua complexidade orgânica.

O recente e triste episódio envolvendo os jovens estudantes do Colégio Goyases, em Goiânia-GO, se reveste de grande dose de dor física e dor psicológica e embora saiba que a dor de alguém é só sua e inimaginável aos outros, eu sinto em meu peito e alma quase a dor dos envolvidos. Dos pais dos mortos, dos feridos, dos pais do jovem assassino e até sua própria dor. Dói demais imaginar duas vidas tão efêmeras perdidas, quatro adolescentes agonizando num hospital e um menino de 14 anos acuado, assustado na delegacia de polícia, que mal entende a proporção de seu ato cruel.

Entra em cena a dor para todos os evolvidos. A dor mais terrível nessa hora não é a física, em que pese o respeito aos que estão feridos no hospital. Então, eu não posso imaginar que todos aqueles que são pais como eu, não sintam também uma grande dor por tudo isso que ocorreu no colégio em Goiânia.

O que vem à mente agora é a reflexão de que será que essa tragédia, nesse caso específico, poderia ser evitada? Embora tenha consciência de que imprevistos acontecem, algumas considerações devem ser levadas em conta, para que todos nós possamos nos precaver daqui em diante frente a fatos semelhantes que possam se suceder.

Quem é pai de adolescente sabe das rebeldias e “modo de vida próprio deles”. Não devemos esperar que eles nos contem nada de suas vidas, seus desejos e ambições. Também não nos contarão, salvo raras exceções, os seus problemas e decepções. Se por um milagre nos contarem qualquer coisa, seus medos ou dificuldades, devemos imediatamente dar-lhes atenção e prestar-lhes todo o apoio e orientação. Esqueçam aquele ditado que diz: “meu filho eu conheço”. Nós não conhecemos mais nossos filhos.  

Uma intensa dor emocional num menino aparentemente sadio desencadeou toda a dor desse triste episódio. Não atentaram seus pais para sua condição física que exalava odor repugnante aos seus ignorantes colegas. Descuidou-se todo mundo, inclusive a escola, pelas constantes ameaças do autor em repulsa aos ataques que sofria.

O mais triste de tudo isso é a dúvida que fustiga: será que só o uso do desodorante iria evitar tudo isso?  Só Deus sabe!

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