Sábado, 10 de Dezembro de 2016

CENAS

André Luiz Alvez: "Fogo que se alastra"

1 DEZ 2016Por 03h:30

Fico surpreso quando alguém me chama de poeta. Nada contra, fico até envaidecido, mas não sou poeta, sou cronista, contador de casos, inventor de frases. 

Devo isso ao gosto pela leitura, sou desde sempre um devorador de textos. Não tive uma infância diferente dos da minha geração, algum tipo de píncaro ou coisa assim, gostava de jogar bola, soltar pandorgas e competir com bolitas. O único senão é que sempre gostei de ler, não dormia sem antes pegar um velho livro empoeirado na estante, daqueles que traziam na essência o prazeroso cheiro das páginas do livro.

 Numa época que não existia internet, eu mergulhava no mundo através da leitura e disso carrego enorme orgulho, aprendi muito, descobri até que a Lituânia existia, vi terras que meus olhos jamais alcançarão, conheci lendas, vesti roupas iguais às de Carlos Magno e junto dele caminhei em busca da conquista da Itália.

Fiz armas, armazenei amores impossíveis e, num rompante, desprezei Rapunzel. Num espasmo de surpresa profunda, descobri que no interior da Inglaterra, viveu no século XIX uma escritora de excepcional talento para criar personagens que entraram na minha memória para nunca mais sair. Era uma moça extremamente tímida chamada Emile Brontë, que me contou de um certo morro, pelo qual se espalhavam os ventos uivantes. E desde então, o vento se misturou ao fogo que em mim se espalha. 

Eu ainda não havia lido Vinicius de Moraes quando escrevi pela primeira vez “Fogo que se alastra”, até que me peguei diante de um texto que o poetinha escreveu, muito antes, em homenagem ao Antonio Maria: “Fogo que se alastra”, dizia em forma de saudade que a morte do amigo lhe causou. Ah, eu achei aquilo tão lindo, mas ao mesmo tempo decepcionante, porque imaginava que a frase fosse minha, já que a construí num momento de incertezas, diante de um desses percalços da vida que a gente não sabe o que vai acontecer mais adiante e se assusta quando percebe as dificuldades aumentando sem cessar, sem dar trégua. 

Então escrevi no canto direito do meu caderno a frase seca: “A dor que me consome é fogo que se alastra!” E não parei nunca mais, permitindo que o fogo prosseguisse se alastrando. Quando acordei nesse sábado, me detive diante da foto do Mário Quintana. A ternura constante emoldurando o rosto do poeta serviu-me de inspiração para escrever essa crônica. 

Diante dos olhos serenos do grande poeta, o fogo começou a se alastrar dentro de mim.  Mario Quintana escreveu certa vez: “O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.” E derreteu outra frase que eu vinha aprontando e que falava algo semelhante a isso, que se tornou imbecil depois que li o Quintana, algo mais ou menos assim: “Não se pode desprezar a suavidade do silvo do vento.” Resolvi então deixar o vento em paz.

Mas sigo tentando outras frases, que logo virão, ainda que o vento não assopre e o silvo muitas vezes se perca entre as labaredas do fogo que se alastra. 

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