Domingo, 04 de Dezembro de 2016

Opinião

André Domingos: "Reflexões sobre a violência"

André é professor de Medicina da UNIDERP e UFMS. Médico Urologista.

17 OUT 2016Por DA REDAÇÃO01h:00

A violência é algo incompreensível sob qualquer circunstância? Ou apenas se torna estarrecedora quando praticada de forma fútil, banal ou “sem motivo”?

Os dois últimos casos noticiados pela imprensa e mídia social, um de repercussão nacional e outro local, evidenciaram  que a sociedade reflete, critica e repudia atos de barbárie. Todos se comoveram ao ver adolescentes torturarem sem motivo, se é que há motivo para tortura, uma jovem em Trindade - GO. Curto espaço de tempo a seguir, em Campo Grande, noticiou-se que um grupo, encorajado por estar em maioria, sufocou e espancou um rapaz nas ruas da capital.

 Em contraponto, observa-se certa tolerância com atos considerados menos dolosos ou mesmo com a exposição indireta à violência, ou seja, não se indigna da mesma maneira quando idosos são abandonados, quando há violência de gênero ou mesmo quando crianças presenciam atos violentos em casa, nas ruas ou pelos meios de comunicação, às vezes disfarçadas por estes últimos como esporte ou até mesmo entretenimento.

A maldade do homem, segundo Rousseau, provém da transformação do indivíduo, originalmente bom, em ser egoísta e individualista o que de certa maneira foi ratificado por Freud tempos depois: “As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada”. É óbvio que neste diapasão existem fatores alheios à individualidade como a fome, a deseducação ou a falta de qualquer perspectiva de viver dignamente que impulsionam atos violentos e, mesmo nesta situação não podem contar com nossa indulgência. No entanto, é explícito que as jovens em Goiás ou a gangue campo-grandense não estavam sob estas condições. Havia, nesses casos, plena possibilidade de agir de maneira diferente, o que nos leva a refletir sobre as razões de seus atos. 

Seria a incapacidade dos indivíduos em alegrar-se com aquilo que têm? Seria a manifestação mais pura do egoísmo e do autocentrismo? Seria a permanente incapacidade em lidar com as frustrações? Difícil escolher apenas uma, o mais provável é que a resposta esteja na confluência de todas elas.

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