Artigos e Opinião

ARTIGO

Águas do Guariroba – situação e perspectivas

*Silvia Rahe Pereira: Bióloga, Doutora pela UFSCAR em Ecologia e Recursos Naturais e Bolsista da Embrapa
*Frederico Valente: Engenheiro, especialista em Engenharia Sanitária e Gestão Pública, foi Presidente da Sanesul

Redação

09/04/2015 - 00h01
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De onde vem a água que serve Campo Grande? Corremos risco de falta de abastecimento? Começamos a nos perguntar sobre tais questões frente à crise no fornecimento de água em diversas cidades mundo afora, ocorrida nos últimos meses. Para respondê-las, vamos inicialmente, a um breve histórico. Quando em março de 1987 a Sanesul inaugurou o Sistema Guariroba, não havia tecnologia para retirar a água mais barata e potável das profundezas do então chamado “Arenito Botucatu”, o que hoje está resolvido. Foi então necessária a execução da grande e custosa obra para trazer água do Córrego Guariroba a uma distância de 30 km e elevá-la 200 metros, para chegar até a estação de tratamento (ETA) e atender Campo Grande até o ano 2000.

Passados 28 anos, a Bacia do Guariroba ainda é a principal fonte do abastecimento da Capital sendo responsável por 38% deste. Por conta disso, já naquela época foram iniciados alguns estudos por um grupo técnico polivalente, composto não só por especialistas da SANESUL, como também do órgão ambiental e da sociedade civil, visando a preservação e sustentabilidade do manancial. Esses estudos acabaram fornecendo subsídios à Constituição Estadual de 1989 que contemplou a questão da água em diversos artigos, e também ao Poder Público Municipal que instituiu em 1995 a Área de Proteção Ambiental dos Mananciais do Córrego Guariroba (APA do Guariroba).

Na elaboração do seu Plano de Manejo publicado em 2008, detectou-se que a progressiva substituição da vegetação natural por pastagens cultivadas, associada a situações em que o manejo do gado e do solo não foi compatível com a capacidade de suporte ambiental local, gerou impactos expressivos na Bacia, sobretudo no que se refere a processos erosivos e ao assoreamento dos corpos d’água naturais e também da represa de captação. Como consequência, já é detectada atualmente diminuição da lâmina d’água e da sua vazão.

Em atenção a essa preocupação, uma ampla proposta de recuperação de toda Bacia foi instituída pela Prefeitura.  O Programa Manancial Vivo é uma experiência de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) para proprietários que implantem práticas e manejos conservacionistas e de melhoria da distribuição da cobertura florestal na paisagem, contribuindo para o incremento de biodiversidade, aumento da infiltração de água e redução efetiva da erosão e sedimentação. A Prefeitura, com recursos da Agência Nacional de Águas, custeia 40% dos investimentos dos produtores com as medidas de preservação ambiental adotadas em cada propriedade.  Além disso, cada um receberá por cinco anos uma compensação financeira anual por hectare preservado, como PSA. Apesar do Programa já estar em andamento desde 2009, este ainda apresenta alguns gargalos que devem ser enfrentados.

Deve-se haver o entendimento que sua implantação em toda a extensão da Bacia extrapola os períodos de mandatos da gestão municipal. Desde seu início, há seis anos, duas das cinco sub-bacias foram atendidas. Sob pena de cair no descrédito do produtor, deve-se evitar, a todo custo, a perda de celeridade na execução das atividades previstas. O novo fôlego ganho com a assinatura dos contratos com os produtores da 2ª fase e o lançamento do edital da 3ª fase agora no mês de março não pode ser perdido, independente de troca de gestores. 

O produtor precisa ser definitivamente “convencido” de que o Programa é uma boa oportunidade! Ele receberá subsídios para parte da execução das intervenções, apoio técnico para a elaboração do projeto de adequação da propriedade, terá acesso às tecnologias já existentes para a melhoria na produção de forma sustentável e, ao fim ainda receberá parte do investimento de volta na forma do PSA. Independentemente do Programa, já teriam que executar diversas intervenções para atender, tanto ao plano de manejo da APA, como às demais leis ambientais vigentes, e já estão sendo cobrados pelo Ministério Público. 

Outro ponto a ser enfrentando seria a segurança de disponibilidade de recursos para do pagamento do PSA. Este tema começou a ser efetivamente discutido no mês anterior e, sabendo que o pagamento do PSA representa a força motriz do Programa, deve-se definir as estratégias de longo prazo para garantir recursos suficientes para seu pagamento: a utilização de parte dos recursos do Fundo Municipal do Meio Ambiente? A concessão mais de recursos oriundos de Termos de Ajustamentos de Conduta, assim como o primeiro aporte advindo de um TAC com a JBS? É preciso deixar claro isso.

Uma quarta questão, mais operacional e ainda pouco discutida seria a organização da cadeia de produção de sementes e mudas de espécies nativas (ainda pouco estruturada) para subsidiar a restauração de APPs na região. O cenário ideal de plantios com alta diversidade de espécies e com mudas resultante de coleta de sementes da própria Bacia ainda é muito distante da realidade. 

Garantindo o entendimento que a água é de todos e cada um deve cuidar da sua, a fiscalização social deve ser constante. É necessário que o trabalho do grupo de discussão criado no último dia 20 de março, com representantes de diversos segmentos da sociedade para atuar no acompanhamento de temas relativos ao uso e preservação da água, não desacelere à medida que as notícias sobre a escassez de água comecem a rarear. Por fim, respondendo às perguntas iniciais, ainda estamos distantes da situação enfrentada pela população de São Paulo. Segundo estudos recentes, apesar de já ter havido uma redução na produção de água do Guariroba, há condições de duplicar a oferta deste recurso, à medida que haja controle da quantidade de sedimentos que vão parar na represa.  Para isso é preciso recuperar e preservar.

EDITORIAL

Trânsito: mudanças para o coletivo

Medidas da Agetran geram, em um primeiro momento, muita resistência, mas buscam melhorar a fluidez e acompanhar o crescimento de Campo Grande

25/04/2026 07h00

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As alterações recentes promovidas pela Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) em Campo Grande têm provocado reações negativas por parte de parcela significativa da população. A insatisfação, em muitos casos, é compreensível do ponto de vista individual, especialmente quando mudanças afetam rotinas consolidadas.

No entanto, antes de críticas precipitadas, é necessário compreender as razões que motivam essas intervenções.

Campo Grande não é mais a mesma cidade de anos atrás. O crescimento populacional e o aumento da frota de veículos impuseram novos desafios à mobilidade urbana. Em vias de grande circulação, como a Avenida Afonso Pena, tornou-se inviável manter a lógica de tráfego de um período em que o fluxo era muito menor.

Medidas como a proibição de conversões à direita em determinados cruzamentos – a exemplo do encontro com a Rua Bahia – são respostas técnicas a essa nova realidade.

Ainda que causem desconforto inicial, essas mudanças buscam melhorar a fluidez do trânsito em corredores estratégicos. Ao restringir movimentos que geram retenções e conflitos entre veículos, a tendência é de reduzir congestionamentos e tornar o deslocamento mais eficiente no conjunto da via.

Trata-se de uma lógica amplamente adotada em centros urbanos maiores, onde a organização do tráfego exige decisões que priorizem o coletivo.

É nesse ponto que surge o principal desafio: a diferença entre o interesse individual e o benefício coletivo.

Para o motorista que precisa alterar seu trajeto ou percorrer alguns metros a mais, a medida pode parecer inconveniente. No entanto, quando analisada sob a ótica da mobilidade urbana como um todo, a intervenção tende a trazer ganhos mais amplos, beneficiando um número maior de pessoas.

Cabe também ao condutor assumir seu papel nesse processo. Dirigir em uma cidade que se aproxima de 1 milhão de habitantes exige mais do que conhecimento básico das leis de trânsito. É preciso atenção às mudanças, planejamento de rotas e disposição para se adaptar a uma dinâmica urbana em constante transformação.

Como toda mudança, há um período de adaptação. É natural que, no início, prevaleça a resistência. Contudo, a experiência mostra que, com o tempo, novas regras são assimiladas e passam a fazer parte da rotina.

A expectativa é de que, no futuro, essas intervenções sejam compreendidas não como obstáculos, mas como instrumentos para um trânsito mais organizado e eficiente.

Mais do que agradar individualmente, a gestão do trânsito deve buscar soluções que atendam ao interesse coletivo. E, nesse sentido, ainda que impopulares no curto prazo, as mudanças podem representar um passo necessário para acompanhar o crescimento da cidade.

Artigo

Como o excesso de informações impacta a relação com a dor?

Nem tudo que é visto ou ouvido se aplica à realidade individual

24/04/2026 07h45

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Em um cenário em que todos opinam sobre saúde, as redes sociais se tornaram uma fonte constante de informação e também de distorção. O excesso de conteúdo, muitas vezes sem contexto ou embasamento, tem contribuído para um fenômeno crescente: o aumento do medo relacionado à dor.

Muitos pacientes chegam aos consultórios já carregando crenças formadas a partir de relatos vistos on-line. Experiências individuais são frequentemente apresentadas como verdades absolutas: “minha dor piorou ao subir escadas”, “me machuquei ao treinar”, “parei e melhorei” ou até afirmações alarmistas como “correr faz o osso bater com o osso”. O problema é que cada corpo responde de forma única. O que acontece com um não define o que acontecerá com outro.

A exposição excessiva a conteúdos alarmistas ativa mecanismos de alerta no cérebro. A pessoa passa a observar mais o próprio corpo, interpretar sensações com preocupação e evitar movimentos por medo. Forma-se um ciclo conhecido: medo gera tensão, tensão gera rigidez, a rigidez aumenta a dor, e a dor reforça o medo.

Além disso, a repetição dessas mensagens amplia o alcance do problema. Uma experiência pessoal compartilhada sem contexto pode gerar pânico coletivo, especialmente em quem já está fragilizado. A dor deixa de ser apenas física e passa a ser influenciada pela expectativa negativa.

Informação é essencial, mas precisa de critério. Nem tudo que é visto ou ouvido se aplica à realidade individual. Buscar orientação qualificada, reduzir o consumo de conteúdos alarmistas e compreender que o corpo é adaptável são passos fundamentais para quebrar esse ciclo.

Em tempos de excesso de informação, proteger a mente tornou-se também uma forma de tratar a dor.

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