Quarta, 22 de Novembro de 2017

Viver de cara limpa

18 MAR 2010Por 02h:02
Prevenir é a palavra de ordem no Projeto Viver de cara limpa, idealizado pelo exdependente químico Ricardo Ribeirinha, que atualmente ocupa o cargo de coordenador de Políticas Públicas Antidrogas do Estado do Tocantins. A proposta visa a combater o consumo de entorpecentes ilícitos, como maconha e cocaína, e lícitos, como álcool e cigarro, por crianças, adolescentes e jovens. Com este ideal de atingir o problema na raiz, o projeto é realizado nas salas de aula de escolas públicas e particulares, onde é possível atrair a atenção de maior número possível deste público-alvo. Para efetivar o trabalho em Campo Grande, Ricardo veio de Tocantins para promover palestras e reuniões com escolas e poder público. Embora alguns colégios particulares da Capital tenham dado sinal verde para que o projeto seja executado, os da rede pública de ensino dependem das decisões da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul (SED) e da Secretaria Municipal de Educação (Semed). Ricardo se reuniu com representantes de ambos os órgãos, que irão analisar os três livros que compõem o kit para ser usado em sala de aula. Além de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Tocantins fazem uso dos livros. Ricardo acredita que o principal fator que leva os jovens às drogas é a falta de valores morais na sociedade. “Isto acontece porque houve uma inversão de papéis. A escola tornou-se responsável pela educação, pois os pais ficaram sem tempo para cuidar dos filhos”, aponta. O trabalho realizado pelo coordenador, desde 2008, tem como principal objetivo resgatar essa relação familiar e demonstrar que deste modo as pessoas podem encontrar a felicidade. “Esta é outra palavra-chave do projeto, pois, muitos jovens procuram nas drogas um pouco de felicidade, mesmo que seja instantânea. Acredito que se o jovem estiver feliz, ele não vai precisar de nenhuma substância”, ressalta. Com essa convicção, Ricardo tem viajado há 18 anos por países como México, Guatemala, África do Sul, China, França, entre outros, falando sobre a importância de se prevenir o uso de entorpecentes. “Drogas e violência sempre caminharam juntas e é necessário empreender essa caminhada”, justifica. Trajetória Nascido em Taubaté, interior de São Paulo, Ricardo nunca teve uma vida fácil. Filho de uma prostituta, ele foi abandonado meses depois de nascer. Segundo ele, o envolvimento com drogas teve início na infância, “com 10 anos mais ou menos”, detalha. Após se envolver com tráfico acabou sendo preso. Foi nesse período turbulento de sua vida que Ricardo entrou em contato com a Fazenda da Esperança, uma instituição focada na recuperação de usuários de drogas, em Guaratinguetá. Por meio de relatos sobre sua trajetória e outros testemunhos de pessoas que sofreram, ou ainda sofrem, com o vício por substâncias químicas, nasceu “Viver de cara limpa”. Para a composição do livro e dos manuais, Ricardo e uma equipe da Fazenda da Esperança fizeram uma pesquisa de campo por bairros da periferia de São Paulo, durante três meses. Ao final, foi produzido um livro-texto, com os relatos para os alunos, além de dois manuais. O primeiro é voltado aos pais e o segundo traz atividades que podem ser aplicadas pelos professores. Ambos são de autoria da professora Maria Clarice do Amaral Salari. “Mas todas as atividades são guiadas por professores, que escolhem como trabalhar cada um dos livros”, explica Ricardo. Drogas O coordenador avalia que drogas são consumidas por todas as camadas da sociedade. “Não se pode mais falar que isso é um problema das classes mais pobres”, enfatiza. Ricardo aponta o crack como o principal vilão dessa história. “Essa droga virou um problema de saúde pública em praticamente todas as grandes cidades do País”, afirma. Ele defende que a forma como as políticas públicas lidam com o problema não tem sido eficaz. “Pouco se fala em prevenção”, argumenta. “Gastam-se milhões na construção de presídios e em transporte de traficantes, mas são mínimos os gastos com campanhas sérias contra o uso de drogas”. Para Ricardo, não levar a sério o trabalho de prevenção é não levar a sério a juventude e o futuro de uma sociedade. “Escolher utilizar ou não essas substâncias cabe a cada indivíduo, mas é necessário que os pais e a escola forneçam as informações necessárias para que a escolha possa ser feita de modo consciente”, finaliza.

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