Sábado, 18 de Novembro de 2017

Vítimas

Violência velada

8 JUL 2010Por 07h:58
SCHEILA CANTO

É engano achar que só marido pobre bate no filho e na mulher. A violência doméstica atinge mulheres de todas as classes sociais, etnias, idades e graus de instrução. Basta lembrar de casos que envolveram a classe média e alta, que alcançaram a mídia nacional, como o do ex-diretor de redação do jornal “O Estado de São Paulo”, Pimenta Neves, que matou a jornalista Sandra Gomide.
Embora tenhamos arrancado essa do baú, não precisamos voltar tanto no tempo. Nos últimos dias a morte da arquiteta campo-grandense Eliane Nogueira, 39 anos, tem tomado espaço no noticiário,  e o principal suspeito é o marido, Luís Afonso de Andrade, que conforme consta no processo já a teria agredido em outras ocasiões. O assassinato da modelo Eliza Samúdio também tem ganhado o foco da mídia, e a suspeita recai sobre o ex-namorado, Bruno Fernandes (goleiro do Flamengo), todos fatos que se somaram ao recente caso da advogada Mércia Nakashima, de São Paulo.
Há quem diga que só quando o relacionamento fica insustentável é que a mulher quebra a barreira do silêncio. E muitas não chegam a esse ponto porque são silenciadas antes, como as descritas acima. Vale ressaltar que nem toda violência deixa marca física. As ofensas verbais e morais causam tanto ou mais dor que socos, pontapés, etc. Humilhações, torturas, abandono, etc. são considerados pequenos assassinatos diários, difíceis de superar, e cuja consequência maior é a perda da identidade feminina.

Estatísticas
Em dez anos, dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil e a motivação geralmente é passional. Elas morrem em número e proporção bem mais baixos do que os homens (92% das vítimas), mas o nível de assassinato feminino no País fica acima do padrão internacional. Estes são alguns dos resultados do estudo intitulado Mapa da Violência no Brasil 2010, realizado pelo Instituto Zangari, com base no banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSUS).
A Coordenadora Especial de Políticas Públicas para Mulher em MS, Carla Stephanini, ressalta que os assassinatos ocorrem quando as agressões já chegaram ao extremo. Na classe média e alta, a maioria das mulheres vítimas de violência não busca os serviços públicos por acreditar que conseguem resolver a situação sozinhas e também por medo/vergonha da exposição. “Assim, elas acabam vivendo um ciclo de violência, que, com o tempo, pode acabar em situações irreversíveis”, alerta Stephanini.
Segundo a coordenadora, embora seu trabalho seja estimular a denúncia, ela esclarece que independente de a mulher registrar queixa contra o agressor, ela pode ter o apoio sociopsicológico por meio do Centro de Atendimento à Mulher. “Acredito que a violência contra a mulher seja a expressão máxima da desigualdade entre os gêneros e fruto de uma sociedade machista e patriarcal. Não podemos ser coniventes com isso”, desabafa.

Palavra de especialista
“A violência é tão corriqueira, que muitos homens não a identificam. É uma geração que foi criada para não levar desaforo para casa”, dispara a psicóloga Sandra da Costa Corrêa, da Unipsico (União dos Psicólogos de Campo Grande).
Para a psicoterapeuta, as pessoas envolvidas na relação violenta devem ter o desejo de mudar. É por essa razão que não se acredita numa mudança radical de uma relação violenta, quando se trabalha exclusivamente com a vítima. O agressor também precisa ser atendido.
Sandra afirma que a mulher geralmente não denuncia seu agressor por vergonha, medo, insegurança, complexo de inferioridade ou até mesmo por dependência financeira e/ou afetiva. “Ela acaba vivendo uma rotina de fantasia e cada vez que é agredida tenta convencer a si mesma de que é a última vez. Assim, evita falar sobre o assunto ou pensar sobre ele para não ter de tomar uma decisão. Com o tempo, não é difícil encontrar muitas que desenvolvem doenças autoimunes, além de uma depressão velada”, argumenta a especialista.
Baixa autoestima e insegurança fazem parte do perfil das mulheres agredidas. Muitas delas sofreram violência na infância e quando chegam ao relacionamento na vida adulta acabam sendo vítimas novamente.

Serviço: O poder público dispõe de serviços de proteção à mulher, por meio do ligue 180 e o disque 0800-671236. Em Campo Grande, o Centro de Atendimento à Mulher fica na Rua General Nepomuceno Costa, 593. Vila Alba. Tefone: 3361-7519.

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