Quinta, 23 de Novembro de 2017

Verdades e mentiras

19 ABR 2010Por 07h:25
Mauro Trindade, TV Press

  Jornalistas bons e maus sempre deram ótimos personagens, especialmente os maus. É nesse filão que vai “A vida alheia”, seriado de Miguel Falabella que estreou há pouco mais de uma semana. Sua Alberta Peçanha, vivida por Claudia Gimenez, é o mais novo nome dessa legião, que conta com o obcecado Charles Tatum, do filme “A montanha dos sete abutres”, ou o barão das comunicações Charles Kane, do clássico do cinema
“Cidadão Kane”. Perto desses, Miranda Priestly, de “O Diabo veste Prada”, e a própria Peçanha não passam de noviças da Ordem Imaculada das Freirinhas Descalças.
Mas é na literatura que estão os piores avais ao jornalismo. Poucos conseguiram chegar ao nível do repórter Amado Ribeiro, da peça “O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues. E Blondet, do romance “As ilusões perdidas”, obra-prima de Balzac, compara a imprensa a um armazém onde se vendem palavras. “Se houvesse um jornal dos corcundas, haveria de provar a beleza dos corcundas”, escreve o francês.
Mais do que um ataque à imprensa de celebridades e suas invasões à privacidade, Miguel Falabella retrata e maneira desesperançada a condição humana, sufocada sob o peso das informações, moeda de troca das relações contemporâneas. Ninguém é bom ou mesmo ruim em seu folhetim. São apenas uncionais. A relação entre a editora Alberta Peçanha e a dona da editora, Catarina Faissol (Marília Pêra), é um primor do desprezo pelo outro, inclusive por elas próprias, respectiva e cinicamente representadas por Gimenez e Marília Pêra.
Manuela, a repórter ambiciosa e igualmente inescrupulosa, é vivida com ardor por Danielle Winits, em um de seus melhores papéis. Paulo Vilhena é um jovem fotógrafo que ainda mantém alguns laivos de ética, em uma atuação convicente de um profissional que tende a ser substituído pelo amador. Mais e mais a foto de paparazzo perde espaço para a câmera de celular, muito mais inesperada, onipresente e invasiva que os equipamentos fotográficos profissionais.
Todos os atores seguem um texto sem escapes para cacos ou brincadeiras. “A vida alheia” revela mais profundamente o “pathos” e a descrença na comunicação que permeia o trabalho de Falabella, um autor que, visto por esse viés, está mais para a tragédia do que para a comédia.
É sintomática sua frase sobre a vida a dois em “O submarino”: “O casamento é como o submarino. Até boia, mas foi feito para afundar”. Em um escritor de recursos, a morte também lhe cai bem.

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