Segunda, 20 de Novembro de 2017

Sonhos e planos concretizados com o lixo

23 FEV 2010Por 04h:01
Três pessoas relataram ao Correio do Estado como chegaram ao lixão de Campo Grande. O sonho do catador Josuel dos Santos era ser mecânico. O que para muitos é um sonho simples, para ele não houve oportunidade. “Sempre precisei ajudar a minha família e quem tem contas a pagar não tem muito tempo para sonhar”. Usando a combinação de palavras, o “garimpeiro do lixo” tem fala fácil e boa articulação. “Eu era servente de pedreiros, mas o setor de obras sofreu uma grande crise, o desemprego bateu, e qual a alternativa para quem tem apenas a 3ª série?”, questiona. Há dez anos na atividade, Josuel viu no lixo o sustento para a família e a chance de ter alguma dignidade, e sabe que o local gera muito dinheiro e desperta interesses. “Nós aqui do lixão somos consumidores do comércio não só aqui da vila (bairros do entorno) como também das grandes redes”. A família dele também trabalha na coleta. O pai, a esposa, os irmãos e duas cunhadas. “Aqui todos nós vivemos do lixo mesmo, mas foi o melhor sistema de trabalho que eu achei até hoje. Não importa se é sujo, se ficamos fedendo, mas sim que ganhamos bem e podemos ter uma vida digna”. Quando questionado sobre os projetos que o poder público tem para os catadores, Santos ameniza. “Seria bom organizar, mas sempre levando em conta os catadores. Teria que ser uma proposta razoável, não um salário mínimo, já que aqui tem gente que ganha isso em apenas uma semana, quem vai catar lixo por mixaria?”, questiona. Bom negócio Na casa do comprador de VALDENIR REZENDE Ao completar 18 anos, jovem comemora poder trabalhar no lixão A noite em que o jovem Adriano completou 18 anos foi especial. Ele comemorou o aniversário com os colegas catadores do lixão. Julio, 14, Willian, 16, e Marcos, 17, fazem brincadeira com o aniversariante que se defende comemorando a maioridade. “Agora eu posso catar sossegado, ninguém pode mais me tomar o gancho”. Ele cata materiais recicláveis desde os dez anos e os cerca de R$ 1,5 mil conquistados mensalmente no local são destinados para ajudar no sustento da casa. Da família de sete irmãos, quase todos trabalham no lixo. “Eu tenho pai e mãe, tudo certinho, e o dinheiro que ganho aqui, ajuda bastante. Se não fosse aqui onde eu iria trabalhar?”, questiona o jovem. Os meninos correm das fotos, eles têm medo de ser reconhecidos e não poder mais trabalhar. Para Willian, a idade não pode impedir de ganhar dinheiro. “Minha mãe é separada e trabalha de empregada doméstica na cidade, eu preciso ajudar ela e também comprar as coisas que eu quero”, explica o garoto, que tem três irmãos. Restrição Segundo os meninos, os funcionários que trabalham no local, quando estão de “mau humor”, tomam o gancho e batem neles. “Falam assim: vocês não podem trabalhar aqui, não! Daí chegamos na vila e a polícia enquadra a gente e diz: vai trabalhar, vagabundo. Afinal, quem nós devemos obedecer? Eu não quero uma vida de bandido”, diz. Brincadeiras e sorrisos desaparecem quando o assunto drogas é abordado. “Aqui ninguém usa droga, é doida?”, questiona Julio. Mas todos conhecem alguém que usa. Marcos, o mais tímido do grupo, resolve, então, dar sua opinião. “Lá na vila tem uns meninos que usam, mas eles nem colam com a gente, não, nosso negócio é trabalhar, ganhar dinheiro e ter um futuro. Eu vou voltar a estudar e quem sabe um dia eu saio do lixo. Mas só saio se for para ganhar algo parecido com o que ganho aqui”, avisa. O trabalho termina quando os compradores chegam. Os meninos fecham os últimos bags (sacos usados para guardar materiais recicláveis) que faltam e os salgados trazidos pelos vendedores aliviam a fome e o cansaço de mais um dia de trabalho. (LBC) Adolescentes desafiam regras e brigam para continuar no trabalho O grupo de adolescentes conversa animadamente. Se não fossem os trajes sujos e o assunto, seria apenas mais um grupo como outro qualquer. O tema é o material reciclável e a ação dos funcionários que trabalham no lixão. “Mas esse povo só atrapalha a gente, isso quando não tomam os ganchos e ainda dão uns tapas”, reclama Clayton. O jovem mente dizendo que tem 15 anos, e logo é corrigido por um comprador. “Fala a verdade, você tem só 12”. A entrada de crianças e adolescentes é proibida no local, e de acordo com os funcionários, a ordem é não deixar que menores trabalhem. “É para protegê-los, mas não conseguimos controlar todo mundo, e eles entram mesmo”, explica um dos funcionários da prefeitura, que prefere não se identificar. Para ele, deveria deixar que eles continuassem. “É melhor do que eles ficarem por aí roubando”, fala. Este tipo de proibição faz com que jovens como Clayton sintam medo de não conseguir mais catar lixo. “Muitos ajudam os pais ou mesmo sustentam a casa com o dinheiro do lixo e por causa da lei os funcionários tomam os ganchos deles”, explica o mesmo comprador. Clayton trabalha em grupo com Marcos, 17, e Adriano, 15. Recolhendo cerca uma tonelada, cada um chega a ganhar R$ 1,5 mil mensalmente. “Não vou achar serviço melhor que no lixo”, conta. Ele acredita que se não fossem os guardas, conseguiria ganhar muito mais do que isso. Trabalho Os bags (sacos) estão cheios e os plásticos e materiais que podem ser comercializados precisam ser separados para render mais. Os meninos parecem não se importar com o mau cheiro ou com os restos de comida misturados. Sem luvas ou qualquer outro tipo de proteção, eles param e comem salgados sentados em volta do material coletado durante a noite. Uma cena chocante para muitos, mas considerada normal ali. “Não tem onde lavar a mão, e nem compensa, vai sujar de novo”, explica Marcos. Entre eles, não há discussões sobre meninas, planos, sonhos ou internet. Os assuntos da moda não interessam a eles e sim aquilo que gera dinheiro. “Sem dinheiro, não vamos a lugar nenhum. Como vamos ter as coisas sem dinheiro?”, questionam. Para os meninos do “garimpo do lixo”, sonho mesmo é conseguir comprar os próprios pertences sem ter que recorrer ao crime. “Eu trabalho e ganho igual a gente grande e quero ser tratado como adulto, o resto não me interessa muito”, finaliza Clayton, dizendo que não quer mais conversar com a reportagem. (LBC) No meio do lixo, jovem comemora a maioridade porque não será mais repreendido pelos guardas que impedem a entrada de menores no local materiais recicláveis Cristiano Gamarra o dia começa cedo. Às 5 horas, já se pode ouvir o ronco do caminhão que o leva até o lixão. Ele trabalha com reciclagem há dez anos, ofício que aprendeu com a família de sua esposa e que hoje é o sustento da mulher e dos dois filhos. A reciclagem antes dava muito dinheiro, mas a concorrência aumentou e com isso os lucros minguaram. Para ele, ainda assim é um bom negócio. “O que eu poderia fazer? Eu só sei mexer com isso ou dirigir caminhões, mas o salário de um motorista é muito baixo se comparado ao que eu consigo ganhar como autônomo aqui”. A rotina pesada de até 14 horas diárias não assusta Gamarra, como ele é conhecido pelos catadores. Com a compra de latinhas de alumínio e os fretes que faz para aqueles que não têm caminhão, ele consegue ganhar até R$ 2,5 mil mensais. “Tem mês que é mais, tem mês que é menos, mas dependemos até do tempo para ter uma boa renda”. Assim como a maioria, ele acredita que o fechamento do lixão pode causar um colapso na economia local. “Os comerciantes daqui vivem do que é arrecadado no lixo, desde o dono da bicicletaria até o supermercado. Sem o dinheiro do lixo os bairros param”, explica ele, em referência ao Dom Antônio Barbosa, Lageado e Parque do Sol. Quando questionado sobre a antítese de sair da casa confortável em que mora em um bairro central e ir até o lixão, o comerciante justifica: “o palhaço pinta a cara para sobreviver, e nós aqui respiramos o mau cheiro, comemos poeira e tentamos ao menos ter dignidade para dar conforto e uma vida diferente aos nossos filhos”, afirma. Luxos “O lixo me deu tudo que eu tenho e hoje é o sustento dos meus filhos”, afirma Nivaldo Arguilhera. Conhecido como Alemão, ele trabalha desde “que se entende por gente” na reciclagem. “Quem começa a trabalhar nisso dificilmente sai. Aqui não tem patrão, não tem horário e dá dinheiro”. Acostumado com o cheiro que os materiais exalam, Alemão hoje trabalha separando e prensando materiais em um dos muitos depósitos instala- LIZIANE BERROCAL COSTA A influência econômica da reciclagem nos bairros próximos ao lixão e também a queda no preço dos produtos serão mostrados na terceira reportagem da série.  ve j a a m a n h ã  dos nos bairros próximos ao lixão. A renda de cerca de R$ 1,2 mil já lhe proporcionou luxos, como computador para os filhos e uma televisão de 42 polegadas na sala de casa. “Eu também já bati gancho (instrumento de ferro usado para revirar o lixo), só que aqui tenho mais segurança, mas não hesitaria em voltar para o lixão, caso fosse necessário, não temos medo do trabalho”, finaliza.

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