Quinta, 23 de Novembro de 2017

Sem transplantes, só mortes fazem fila de renais andar

5 FEV 2010Por KARINE CORTEZ01h:02
Há cinco meses a Santa Casa suspendeu, alegando falta de estrutura, as cirurgias na Central de Transplante – responsável pela captação de órgãos como rim e coração –, obrigando 330 renais crônicos de Mato Grosso do Sul a aguardar na fila de espera. “Muitos não aguentam esperar e morrem. A hemodiálise descalcifica os ossos e endurece os músculos cardíacos. A fila aqui no Estado anda porque os pacientes morrem e não porque fazem a cirurgia”, desabafa o diretor presidente da Associação dos Renais Crônicos de Mato Grosso do Sul (Recromasul), José Roberto Ost. A situação chegou a tal ponto que o hospital corre o risco de ser descredenciado pelo Ministério da Saúde, segundo o diretor de Atenção à Saúde da Secretaria de Estado de Saúde, Antonio Lastoria. Terceiro em número de cirurgias de rins em 2004 no País (por milhão de habitantes), o Estado despencou para a sexta colocação em 2006. No ano passado, até outubro, a Santa Casa fez apenas 14 procedimentos dessa natureza. “Essas 14 cirurgias que foram feitas são de doadores vivos, ou seja, parentes. O problema é que quem está na fila do transplante não tem parente compatível para doar e depende de órgãos de pessoas mortas”, explica José Roberto. O médico André Paulo Oliveira, coordenador da comissão de transplantes do hospital, confirma a suspensão dos serviços. Segundo ele, a medida foi tomada visando à melhoria do setor. “Paramos porque as cirurgias não estavam acontecendo de acordo com as normas exigidas pelo Ministério da Saúde. Um exemplo é que a mesma equipe de captação não pode ser a mesma que realiza o transplante e aqui no Estado não havia essa separação”, disse. Apesar de estar correndo o risco de ser descredenciada pelo Ministério da Saúde para fazer transplante de rim, André garantiu que a Santa Casa almeja fazer transplante hepático – que é o transplante de fígado e exige uma estrutura bem mais complexa do que qualquer outra cirurgia. “Se conseguirmos essa estrutura, poderemos fazer qualquer outro tipo de transplante”, enfatizou André. Mas o hospital vem enfrentando sérios problemas, como falta de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), falta de respiradores e está sempre superlotado. Cobrança O diretor estadual de Atenção à Saúde, Antonio Lastoria, disse que “o Ministério da Saúde, que concede o credenciamento, está cobrando do Estado a realização desse serviço e a Santa Casa tem alegado não possuir estrutura para fazer as cirurgias”, enfatizou Lastoria. Diante da situação, ele adiantou que já está sendo negociada a transferência do credenciamento para o Hospital Regional Rosa Pedrossian (HR), na Capital, e também para o Hospital Universitário (HU), em Dourados. Antonio Lastoria disse que a Central de Transplantes é responsável por fazer a captação de órgãos de doadores mortos. Mas, como a Santa Casa não tem feito as cirurgias, a central passou a enviar alguns órgãos para outros estados. Em dezembro de 2009, por exemplo, dois rins foram enviados para São Paulo. “Não podemos deixar de salvar outras vidas só porque a coleta aconteceu aqui”, disse.

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