Sexta, 24 de Novembro de 2017

Sem saída

26 JUL 2010Por 07h:48
Ler, diariamente,  todos os noticiários faz parte do chamado “ossos do ofício” do jornalista. Se por um lado o exercício da leitura nos dá, digamos, maior poder de argumentação - além da informação, às vezes fico me perguntando se não tenho lido coisas demais. Com o advento da Web somos quase que atropelados, segundo a segundo, por novas informações, quase sempre pessimistas, algumas escabrosas.
Por isso, devo confessar, tenho ficado nauseada, com pavor, muito medo mesmo de viver neste Brasil varonil.  A cada novo click surge na tela uma notícia de violência,  verdadeira guerra urbana que vem se travando na maioria das cidades brasileiras.
Em apenas  poucos minutos pode-se ler várias notícias estarrecedoras: o pai (?) acusado de estuprar o filho de apenas cinco anos de idade; o policial que chuta o ladrão de celular na rua; adolescente baleado na porta da escola; criança atingida por bala perdida em sala de aula; jogador de futebol acusado de crime hediondo; preso que vai se candidatar a cargo político; pré-eclampsia tida como a doença que mais mata gestantes no País; maioria do eleitor brasileiro com escolaridade baixa; tempestades que desabrigam centenas de pessoas; políticos desafiando a justiça... ufa!
Se minha avó fosse viva, com toda certeza diria: estamos no fim do mundo. Caso o fim do mundo for precedido pelo desrespeito ao cidadão e aos seus direitos mais básicos, com certeza estamos muito próximos dele.
O que mais me preocupa nisso tudo é a nossa passividade diante de tamanha balbúrdia. Nem a morte nos comove mais. Banalizamos tudo, inclusive a perda. Principalmente dos outros.
Então caímos na velha história da responsabilidade. Vivemos numa democracia, temos presidente, senadores, deputados federais e estaduais, vereadores; o poder judiciário e dezenas de órgãos de classe. Mas alguém já se perguntou quem é responsável por nós? Alguém já assumiu publicamente a responsabilidade pelo seu eleitor, pelo cidadão brasileiro que paga impostos escorchantes?
Você por acaso já viu algum deles batendo no peito e assumindo a mea-culpa pela falta de segurança ou de educação? Quem, por exemplo, foi à televisão ou aos jornais dizer: “aquela criança morreu por não fizemos a coisa certa”; ou “o trânsito mata porque somos condescendentes com as leis?”; ou ainda, “não sobra dinheiro para a saúde porque temos prioridades mais importantes”?. Já pensou se eles dissessem que não podem priorizar a educação, porque preferem uma nação de cordeiros? A premissa, do tempo da minha avó, mas infelizmente ainda prevalece.
Somos mesmo, um bando de cordeiros. E fomos bem treinados para agir como tal. Ignoramos a história real do País; não sabemos ler (sem contar que nossos livros estão entre os mais caros do mundo), não temos bibliotecas públicas suficientes; não sabemos distinguir o certo do errado; temos opiniões distorcidas, infundadas (quando temos!); acreditamos em tudo que lemos e ouvimos; aceitamos e não discutimos. Sofremos de baixa auto-estima. Mas, obedientes, votamos. Talvez por entender que o processo democrático é lento, ou por ainda acreditar que podemos mudar alguma coisa. Somos ingênuos por natureza.
Aliás, as eleições, já que são obrigatórias, deveriam ser estendidas a outras categorias.
Nos EUA por exemplo, o voto é facultativo, as pessoas escolhem quem vai ocupar a maioria dos cargos públicos. Votam até no candidato a delegado de polícia. Aqui somos obrigados a votar apenas para o Legislativo,além de presidente e governador. E ainda votamos em quem mal conhecemos, pessoas a quem nunca teremos chance de cobrar atitudes e promessas.
Daí a irresponsabilidade. A ironia é exatamente esta: ninguém assume coisa alguma porque o mesmo poder que lhes é dado por nós, os protege das nossas cobranças. Eles não são cobrados nem nas urnas. Estão sempre saindo pela tangente, colocando a  culpa no sistema, na conjuntura econômica, em mim, em você, na mãe. Nunca neles.
Somos órfãos neste país. Ninguém garante minimamente nossa integridade física, econômica, nem moral. Estamos à mercê das nossas vicissitudes.
Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Com farinha e tudo.

Theresa Hilcar, jornalista

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