Sexta, 24 de Novembro de 2017

Sem perspectiva

19 MAI 2010Por 05h:19
Mais que uma “simples” tentativa de permanecer na área invadida, a resistência ensaiada pelos índios terenas na Fazenda Petrópolis, segunda-feira à tarde, em Miranda, não passou de mais uma desesperada forma de chamar a atenção da sociedade para a gravidade do problema que enfrentam as comunidades indígenas no Estado. Na manhã de segunda-feira já haviam interditado a BR-262 e só admitiam sair do local mediante a presença da imprensa. Ou  seja, tudo  o  que  pretendiam era despertar o interesse.  À  tarde, mesmo percebendo a força da tropa de choque da Polícia Militar, esboçaram reação, mas assim que foram dados os primeiros disparos de balas de borracha e das bombas de efeito moral, de imediato recuaram, pois haviam alcançado seu objetivo, já que haviam conseguido produzir as pretendidas boas imagens.

    Em ocasiões anteriores já haviam adotado estratégia parecida, interditando a BR-163, perto de Campo Grande, bem longe das terras que alegam ser suas. Tudo para facilitar a atuação da  imprensa, já  que é  por meio dela que conseguem um mínimo de visibilidade. Na região de Miranda há inúmeras áreas pretendidas pelos terenas. Porém, o alvo predileto são sempre as terras da família do ex-governador Pedro Pedrossian, pois sabem que a repercussão é maior que a invasão de qualquer outro imóvel.

            Não se trata de julgar o mérito deste tipo de estratégia,  pois cada  um deve ter a liberdade de utilizar as “armas” que achar necessárias para tentar alcançar seus objetivos. Porém, o risco é que com o passar dos dias estas manifestações percam o poder de “sedução” e o radicalismo ganhe força. Os povos terenas historicamente foram conhecidos como pacíficos. E, interdição de rodovias e confronto com policiais fortemente armados e preparados para embates certamente não fazem parte da cultura destas famílias. Ou seja, é muito grande e real  a probabilidade de um dos próximos passos ser a busca de mártires para carregar a bandeira da ampliação das aldeias. No sul do Estado, onde os guaranis lutam por mais terras, a morte do cacique Marcos Veron, cujos supostos assassinos começaram a ser julgados recentemente em São Paulo, e o assassinato de dois professores indígenas em Paranhos, em novembro do ano passado, são exemplos claros disto.

            Enquanto isso,  autoridades estaduais e federais simplesmente empurram o problema com a barriga. Prova disto é que o palco do confronto de policiais e índios na segunda-feira está em disputa há cerca de três décadas. Enquanto entra e sai governador, índios e proprietários rurais são obrigados a viver neste clima de absoluta instabilidade. Atualmente, é a família do ex-governador Pedro Pedrossian que sente na pele o peso da omissão dos governantes locais com relação à questão indígena. Existe ainda o exemplo de um ex-secretário de Estado e "quase governador", Ricardo Bacha, que enfrenta situação parecida. Para estes, pelo menos a polícia é mobilizada e expulsa os invasores. Nas demais propriedades, nem isto acontece.  Mas, se nem mesmo o envolvimento de integrantes da "nata" estadual é suficiente para acabar com o imobilismo crônico (o fato de a questão indígena ser "problema federal" não justifica a omissão local) dos governantes de MS, pouca esperança é possível ter no que se refere ao alcance de uma solução.

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