Quinta, 23 de Novembro de 2017

Saudosista conformado

1 JUN 2010Por 06h:28
Márcio Maio, TV Press
 
Para Elias Gleiser, não se faz mais televisão como antigamente. Aos 76 anos de idade e mais de 50 de profissão, o ator não esconde o ar saudosista na hora de traçar sua trajetória na tevê. No ar como o motorista Diógenes de “Passione”, da Globo, Elias ainda solta algumas gargalhadas quando rememora passagens da época em que tudo ia ao ar ao vivo, incluindo os teleteatros bíblicos que marcaram sua estreia na TV Tupi, no programa “Teatro da juventude”. Na época, para mostrar Moisés atravessando o Mar Vermelho, duas caixas de lona foram cortadas para simular as águas se abrindo. “Como era ali, na hora, o pessoal quebrava a cabeça para bolar a melhor forma de exibir sem ficar ridículo. Isso ajudava a dar um certo romantismo ao nosso ofício”, analisa, com um largo e nostálgico sorriso.

Talvez ainda dessa época Elias tenha ganhado a fama de ser “expert” em personagens religiosos. “Se recebo uma sinopse e vejo que há um padre, nem pergunto quem vai fazer: o papel é meu”, brinca ele, que marcou presença em mais de quarenta produções, entre séries, minisséries e novelas. Com uma carreira na tevê iniciada em 1959, muitas foram as vezes em que se empenhou em meio a diversas tarefas acumuladas. “Nós atores é que anotávamos, atrás do texto, o que tínhamos usado. Maquiagem, figurino, continuísta, tudo era bem diferente de hoje. Antes, tínhamos um único contrarregra. Agora, são mais de 10 batendo cabeça”, argumenta. E, assim como hoje, as histórias precisavam de elementos que surpreendessem e prendessem a atenção dos telespectadores. Como, por exemplo, os efeitos especiais, que dependiam de um trabalho braçal bem diferente do que é feito na atualidade. “Uma sequência com uma árvore caindo era interrompida pelos comerciais. Para isso, algumas pessoas seguravam ela o tempo todo para, depois, já de volta ao ar, largar e deixar que terminasse”, recorda.

Nem mesmo o uso do videoteipe diminuiu os cuidados das produções. Isso porque, ao contrário dos dias atuais, não havia edição entre os blocos dos programas. “Tudo era gravado direto, entre um comercial e outro. Se algo desse errado, a gravação voltava ao começo”, explica Elias. Por isso mesmo o ator não tem dúvidas na hora de responder que mudança mais o incomoda daquela época para agora. “A televisão de hoje fabrica celebridades e não artistas. Não ter talento, até vai. Mas irresponsabilidade eu não aguento. Ninguém decora texto às minhas custas. Antigamente, se você não chegasse pronto, não trabalhava mais com aquelas pessoas. Nunca mais”, enfatiza.

Outra dificuldade enfrentada pelas equipes era a organização de cenas externas. No início da Tupi, quase todas eram gravadas ao redor do próprio prédio da emissora, no Sumaré, na Zona Oeste paulistana. “Tinha uma praça em frente ao edifício e outra, atrás. Era até onde os cabos chegavam”, conta Elias, completando que as câmaras pesavam mais ou menos 60 quilos naquele período. Gravações em conjunto entre a Tupi de São Paulo e do Rio de Janeiro estavam fora de cogitação. “As duas não se davam. Para se ter uma ideia, ‘Direito de Nascer’ foi um dos maiores sucessos da Tupi de São Paulo e a do Rio não quis exibir. A novela foi vendida para a TV Rio e lotou o Maracanãzinho no último capítulo”, diz, comprovando a rivalidade.

Elias foi funcionário contratado da TV Tupi de 1964 até 1980, quando a emissora acabou. “Antes, eu trabalhava lá apenas como ‘freelancer’”, explica ele, que passou cinco anos emendando participações especiais em teleteatros. O contrato veio a convite de Cassiano Gabus Mendes, na época o diretor artístico da emissora, que o chamou para integrar o elenco de “Se o mar contasse”. Depois, assinou com a Band, o SBT e, por fim, com a Globo. Mas não parece guardar a fidelidade que tinha à primeira emissora para as outras. Na década de 90 mesmo, não renovou contrato com a Globo para fazer “As Pupilas do Senhor Reitor” no SBT. Voltou em seguida, mas por uma boa justificativa. “Me pagaram mais. Do contrário, teria ficado no SBT. Às vezes, você precisa se mexer para ser valorizado”, entrega.

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