Sábado, 18 de Novembro de 2017

Saúde é caso de polícia?

9 FEV 2010Por PAULO CABRAL01h:43
No marketing político, a popularidade é meta a ser atingida pelo detentor de mandato, custe o que custar. Assim, mais importante que a verdade, é a verossimilhança. Mais importante que o fato é a versão favorável que dele fizer o mandatário. Talvez por isso, a autocrítica tenha caído em desuso. Afinal, a lição ensina que não se deve admitir erros, mas buscar culpados, preferivelmente, bem longe do poder. Devido a episódios de violência tendo por vítimas profissionais de saúde, nos últimos dias, o Prefeito Nelsinho Trad propôs destacar policiais militares para garantir a segurança nas unidades de saúde. Será que a saúde de Campo Grande deve ser tratada como um caso de polícia? E se for, será que o alvo da ação policial devem ser os usuários do Sistema Único de Saúde – SUS? Conforme o esperado, com as chuvas de verão e a proliferação dos vetores da dengue, a epidemia se instalou em nossa Capital. Não se trata de evento imprevisível, ao contrário. E quais as providências dos gestores para atender à demanda por serviços de saúde que, inevitavelmente, cresceria? Campanha de sensibilização para combater criadouros de aedes aegypt é necessária no plano da prevenção, mas não funciona no da assistência. Depois da doença contraída é preciso atendimento, com profissionais de saúde, notadamente médicos, para oferecer uma resposta que dê conforto ao doente e tranquilize sua família. É sabido que a dengue, em sua forma hemorrágica, pode ser letal e novos óbitos continuam a ocorrer. Contudo, ao que parece, as unidades de saúde, em particular as que atuam 24 horas, permaneceram com seus quadros cronicamente insuficientes, agora mais deficitários, frente ao aumento da demanda. O resultado desta situação é a dilatada demora no atendimento que, dada a fragilidade do doente, o medo de um desdobramento mais sério, a irritação provocada por uma longa espera pode despertar revolta. Obviamente, sob hipótese alguma devem ser aceitos comportamentos de desrespeito ou agressão aos profissionais de saúde. Eles precisam, no mínimo, de segurança para desenvolverem seu trabalho. Precisam mais, de todas as condições inerentes ao digno exercício profissional. E isto, a polícia não poderá dar a eles. Ou seja, não é um aparato repressivo que vai resolver o problema. É preciso investir maciçamente em saúde; contratar mais profissionais, antecipar-se às epidemias e dispor de gente suficiente e capacitada para atender à demanda adicional que elas impõem. Para tanto, não é preciso grandes esforços de planejamento. Cabe aqui um parêntese. É lamentável constatar que o controle social concebido pelo SUS não esteja sendo capaz de exercer plenamente a sua função. Quando o Fórum dos Trabalhadores em Saúde se volta, prioritariamente, para a luta por direitos corporativos, deixando de enxergar a dimensão maior do sistema, apequena a sua atuação e abre brechas para manifestações individuais de violência contra os profissionais. Quando o Fórum dos Usuários burocratiza- se, sem estabelecer um canal de comunicação efetivo com a população que deveria representar, igualmente, abre brecha para manifestações individuais de violência contra os profissionais. Quando o Governo deixa de investir o mínimo necessário em saúde e, não raro, equivoca-se na eleição das prioridades nas quais investe, também abre brecha para manifestações individuais de violência contra os profissionais de saúde. E aí, ao invés de se proceder a uma avaliação rigorosa de como os serviços estão sendo oferecidos, de como a população está sendo tratada, busca-se um bode expiatório, o usuário intolerante que agrediu o profissional no exercício de sua função. Ao invés da autocrítica, do enfrentamento do problema, busca-se a a solução mais simples, cômoda e apropriada para o governante, segundo os manuais de marketing político. Cria-se um factóide, ao se propor a presença de policiais militares para garantir o seguro funcionamento das unidades de saúde, retira-se o foco do cerne da questão e o problema permanece. Com certeza, melhor seria que houvesse vontade política para destinar recursos suficientes à atividade fim dos SUS, prestando assistência integral de qualidade à saúde da população, com respeito ao direito de cada cidadão.

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