Domingo, 19 de Novembro de 2017

Cenas de Campo Grande

Samba da saudade

10 FEV 2010Por EDSON C CONTAR, JORNALISTA,ESCRITOR E CARNAVALESCO21h:32
Meados dos anos 50. É domingo de carnaval. Ao meio-dia começam a aparecer os primeiros mascarados zanzando pela Rua 14 de Julho. Pelas calçadas, pequenas bancas improvisadas oferecem confetes, serpentinas, lança-perfume, máscaras, fantasias e pequenos instrumentos, barulhentos que só! Aos poucos, a rua vai ganhando colorido e o movimento cresce sem que se saiba de onde surgem tantos pierrôs, palhaços, diabos, índios, colombinas, arlequins e outros seres desconhecidos, tal a mistura de personagens e a criatividade dos que não tinham recursos para encomendar o traje na costureira – existiam as costureiras de carnaval – emendando e remendando roupas velhas ou surrupiando um vestido da irmã ou da mãe para compor um tipo estranho de mulher com bigodes e até barbas. Tudo era festa! A partir das quatro horas da tarde o agitado centro assiste e participa de uma alegria contagiante, provocada pelas buzinas, bumbos, pandeiros e até panelas que desfilam em carros abertos, caminhões e carroças. Era o corso! A grande passeata dos veículos decorados, com gente alegre e feliz, lançando confetes e serpentinas nos que assistiam cantando as marchinhas puxadas por cada grupo desfilante. Não havia concursos, nem programações, nem regulamentos, somente a alegria, o improviso e a criatividade. Um verdadeiro carnaval. Havia sempre um ou outro folião que se destacava e ganhava aplausos da multidão por seu desempenho e simpatia ao motivar os que, titubeantes, assistiam passivamente a banda passar. Um desses foliões era o famoso Thirson de Almeida, figura querida e carismática que sabia como ninguém chamar para si a atenção e os aplausos por sua performance elegante e contagiante. Um terno branco, chapéu palhinha e a célebre bengala numa das mãos. Um simples aceno para a plateia e lá vinham os aplausos para o Thirson. Quando parou, passou a bengala para Ramão Achucarro, que deu continuidade à alegre missão de distribuir alegria para o povo. Antes deles, além do precursor Clube dos Fidalgos, de 1914, os grandes animadores Giordano, Jorge Kalif, Seti, Osvaldo Santos Pereira e centenas de outros já carregavam multidões atrás de seus blocos, cordões e carros alegóricos. Em meio à multidão que acompanhava os corsos, dançando pela rua, vários tipos complementavam um espetáculo que nascia naturalmente, entre cantos e risos, sem excessos e desentendimentos. Era dia de carnaval. Até eu, ainda rapazinho, acabei envolvido pela magia da festa. Saímos, eu (38 quilos, menos de metro e meio, vestindo um smoking), o Clodoaldo Huguenei (60 quilos, vestido de bebê, usando um lençol como fralda e trazendo uma mamadeira gigante, cheia de whisky) e o Alfredo Scaff (que já beirava os 100 quilos e quase dois metros de altura) ,vestido de mulher grávida. Eu fazia o papel de um mirrado marido. Dá pra imaginar o quadro?. Que saudade dos meus queridos amigos! Como nós, centenas de outros grupos aprontavam suas palhaçadas e saíam a divertir-se, cada um a seu modo. À noite, ouvia-se ao longe uma bateria.L á vinha o célebre Badu com seu super Bloco Filhos da Felicidade”. A Rua 14 de Julho explodia! Os “índios do badu” iam abrindo alas, agitando suas machadinhas e dando espaço para o bloco que marcou aquela época em Campo Grande. Foi dos Filhos da Felicidade que nasceram outros blocos e deles as primeiras escolas de samba. Goinha, Felipão e Picolé são alguns dos componentes do bloco do Badu que, com o tempo, se tornaram os precursores das escolas em Campo Grande. “Tempo bom, não volta mais...saudade, quanto tempo faz! “– assim fala a canção e assim é a realidade...

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