Quinta, 23 de Novembro de 2017

Rombo na conta corrente pode atrapalhar expansão da economia

24 JAN 2010Por 06h:41
O expressivo crescimento do déficit em conta corrente nos últimos meses já influencia a cotação do dólar e deixa o Brasil mais vulnerável aos humores da economia global. Por enquanto, 10 entre 10 analistas avaliam que o rombo pode ser coberto facilmente, o que afasta o risco de uma crise. Mas muitos já alertam que a continuidade do atual ritmo de alargamento do rombo poderá afetar a expansão do País a partir de 2011. Em dezembro, o saldo negativo alcançou US$ 5,9 bilhões, um recorde mensal desde que a estatística começou a ser feita, em 1947. No ano passado todo, o buraco chegou a US$ 24,3 bilhões, o equivalente a 1,55% do Produto Interno Bruto (PIB). Para 2010, a expectativa do Banco Central (BC) é de que o déficit seja de US$ 40 bilhões. No mercado, porém, já há projeções de até US$ 60 bilhões, mais de 3% do PIB. A conta corrente sintetiza as relações de uma nação com o exterior. Inclui a balança comercial (exportações menos importações), a balança de serviços (como royalties que multinacionais mandam para suas matrizes) e as transferências unilaterais (dinheiro que estrangeiros que vivem aqui remetem para seus países e brasileiros que moram lá fora mandam para cá). Quando a conta corrente é deficitária, o país precisa financiá-la. Hoje, não há problemas, pois o Brasil é o queridinho do mercado financeiro global. Só de Investimento Estrangeiro Direto (IED) o BC espera US$ 45 bilhões em 2010, o que não está muito distante da média do mercado. Há, ainda, outras fontes potenciais de atração de dinheiro, como aplicações em títulos públicos e ações brasileiras. A essas atenuantes devem-se acrescentar as reservas brasileiras, hoje em US$ 241 bilhões. “Como vejo uma conta financeira forte em 2010, acredito que novamente haverá sobra de dólares, o que implicará um aumento das reservas internacionais em cerca de US$ 20 bilhões”, afirma o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges. “Ninguém está discutindo solvência, mas pode haver volatilidade. Por quê? Com três meses seguidos de enfraquecimento da entrada de capitais, haveria pressão no mercado de câmbio”, diz o economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados. O professor da PUC de São Paulo Antonio Corrêa de Lacerda é outro que não vê grande risco no curto prazo. Mas também faz um alerta. “Deveríamos evitar essa trajetória porque pode não ser problema em 2010, 2011, mas à frente poderá ser.” O risco é o de que uma mudança nos humores do mercado global reduza o fluxo de capitais para o Brasil. Isso faria o dólar se valorizar, o que provavelmente impactaria a inflação. Para evitar uma escalada de preços, o BC teria de elevar a taxa básica de juros, o que esfriaria a atividade econômica. No limite, esse mecanismo pode se converter em grave crise, como já ocorreu em outros momentos da história, notadamente nos anos 70 e 80. Efeito no câmbio Segundo o economista Sidnei Nehme, sócio da NGO Corretora, a expectativa de volatilidade já começa a se refletir na movimentação dos investidores. Ele dá como exemplo a posição de estrangeiros no mercado futuro de câmbio na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). No fim do ano passado, esses agentes tinham posição líquida comprada em real no valor de US$ 3,25 bilhões. Hoje, são US$ 2 bilhões. Em português, significa que a aposta na valorização do real caiu em quase 40%. Esses números costumam oscilar bastante. Portanto, não podem ser lidos como tendência sem volta. Mesmo assim, Nehme, grande conhecedor do mercado de câmbio, não tem dúvidas de que a influência do déficit em conta corrente já é sentida. “(O déficit) põe o dólar em rota ascendente, apesar das reservas elevadas”, afirma. “É sempre um sinal preocupante, que merece cuidados.” O vaivém do mercado de câmbio mundial é outro alerta. Em uma lista de 35 moedas, o real é a que apresenta a maior desvalorização ante o dólar neste início de ano, 3,53%. Parte do desempenho se explica pelo avanço da moeda americana no mundo nas últimas semanas. O euro, por exemplo, perdia 1,1% ante o dólar até quinta-feira. Outra parte decorre da valorização do real em 2009, a maior do mundo, 39,8%.

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