Sábado, 18 de Novembro de 2017

Rivalidade entre irmãos pode virar patologia

1 ABR 2010Por Marcela Rodrigues Silva (AE)20h:34

Brigas entre irmãos são tão comuns que toda novela tem a sua. Na trama das 21h da Globo, "Viver a vida", é possível identificar o que os especialistas chamam de patologia – quando a rivalidade passa dos limites. Os irmãos gêmeos Jorge e Miguel (Mateus Solano) vivem às turras por ciúme da mesma mulher, Luciana (Alinne Moraes). Ela, por sua vez, seja pela beleza ou maior atenção na família, é alvo da inveja da irmã Isabel (Adriana Birolli).

"A competição tem origem nas questões de sobrevivência, faz parte do ser humano", fala a psiquiatra Tatiana Moya, coordenadora do Departamento de Epidemiologia Psiquiátrica da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). "A discussão entre irmãos é saudável, mas passa dos limites quando entra no tripé da rivalidade: ciúme, competição e inveja", diz a psicoterapeuta Nise Britto, autora do livro "Rivalidade fraterna" (Editora Ágora, R$ 52,90).

As brigas na infância, segundo Nise, funcionam como um laboratório para a vida – experiência que um filho único não passa. "Irmãos normalmente competem, mas são cúmplices. Infelizmente, a inveja é o sentimento que predomina e mais causa a rivalidade patológica".

É possível distinguir discussões saudáveis das graves ainda na infância. A principal característica seria a troca de papéis. "Para a família viver em equilíbrio, cada um deve ter o seu lugar. Quando o irmão mais velho se comporta como o caçula, ou o contrário, algo está errado", alerta Nise.

 

Pais

E de quem seria a culpa? "Principalmente dos pais. Ninguém nasce invejoso ou ciumento", diz Nise, exemplificando com "Viver a vida". "A mãe dos gêmeos não demonstra preferência, mas interfere diretamente na vida deles, seja na carreira ou nos relacionamentos amorosos. Já na família de Luciana e Isabel, a mãe vive afirmando que tem mais afinidade com a mais velha, Luciana, além de enchê-la de elogios diante das outras. A invejosa Isabel, filha do meio, chegou a dizer à mãe em uma cena algo como ‘quem sabe agora que a Luciana mudou de casa você se lembra que tem outras duas filhas’".

Para Tatiana não há culpados, mas comportamentos que podem despertar a competição patológica. Ela conta que é comum os pais alimentarem a rivalidade. "Um exemplo são estímulos do tipo ‘quem terminar a tarefa de casa mais rápido vai ganhar um presente’".

O psiquiatra Eduardo Tischer, do Programa de Distúrbios Afetivos e Ansiosos do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, crê que a reação de cada filho, que pode ser determinada geneticamente, também contribui. "Cada pessoa nasce com um temperamento, mais extrovertido ou tímido, por exemplo. O que para um pode ocasionar em uma reação ciumenta, para o outro não. Tudo depende do temperamento. Mas, é claro, que a criação e o convívio vão moldando as características de cada um. Outros fatores fora de casa também podem salientar ou gerar a rivalidade".

Nem sempre pai e mãe têm as mesmas atitudes diante dos filhos. Por isso, deve haver uma observação, sem cobranças. "Se o pai tem preferência por um filho, a mãe não pode compensar dando mais carinho ao outro. Isso só causará confusão", diz Nise. Pais e mães, acredita Tischer, devem usar estímulos racionais e afetivos para demonstrar aos filhos os motivos que um dos irmãos demandou mais atenção, ou que não há preferência entre eles. A regra é nunca mentir e eliminar a comparação.

Leia Também