Sexta, 17 de Novembro de 2017

Rivais, pero no mucho

19 JUL 2010Por 21h:29
OSCAR ROCHA

Não aconteceu nesta Copa do Mundo, mas é como se tivesse acontecido. O Brasil não enfrentou a seleção de futebol da Argentina, mas o jogo entre ela e a seleção da Alemanha foi acompanhado com entusiasmo pelo torcedor brasileiro. A derrota do país vizinho trouxe espécie de redenção diante da desclassificação brasileira. Ainda mais levando-se em conta os quatro gols marcados pelo alemães. Agora, a pergunta que fica é: será que essa rivalidade extrapola os campos de futebol e orienta outros períodos.
Para o jornalista  e advogado – atualmente assessor parlamentar – Rafael Jasovich, 54 anos, argentino, radicado no Brasil há 35 anos – em Mato Grosso do Sul há 18 anos – a rivalidade está mais centrada no campo de futebol, sendo alimentada por setores da imprensa brasileira. “Poxa, o que é aquilo do Galvão Bueno dizer que o melhor é ver a Argentina perder para a Alemanha?”, lembra Rafael, que teve que deixar o seu País durante a ditadura militar, na década de 1970. “Se eu não saísse, seria morto”.
Ele retorna frequentemente ao país de origem e não observa animosidade dos argentinos com relação ao brasileiros e vice-versa. “No Brasil, sempre fui bem tratado. Nunca sofri qualquer tipo de preconceito por ser argentino”. Pai de uma filha brasileira, com 21 anos, diz que o racha familiar se concretiza somente no dia em que as duas seleções jogam – ele torce para a Argentina e ela para o Brasil.
Por outro lado, acha que os argentinos conhecem muito mais do Brasil do que o contrário. “Os argentinos em geral têm conhecimento muito grande sobre a realidade da América Latina e sua  história, ao contrário dos brasileiros”, avalia Rafael. Ele acredita que diferenças históricas influenciam nesse processo. “Fora o Brasil, que não precisou lutar para conseguir sua independência de Portugal, os outros tiveram que fazer revoluções para conseguir livrar-se da Espanha”.
O técnico em merchandising Pablo José Bollia, 27 anos, há cinco anos no Brasil, diz  que há preconceito contra argentinos, mas é tão pequeno, que prefere pensar mais na boa recepção que recebeu no Brasil. “Tem 1% ou 2% de pessoas ignorantes que querem levar a rivalidade do fubebol para outras áreas, mas é minoria. Nem levo em consideração”, enfatiza o argentino, que é casado com uma brasileira.
Bollia aponta que há certo folclore em chamar os argentinos de “orgulhosos” e “prepotentes”. “Isso acontece porque alguns deles dizem algo e todos acham que eles representam o país na totalidade. Veja só o caso de Maradona: diz muitas bobagens e as pessoas acham que o pensamento dele é o da Argentina. Não é bem assim, é preciso separar as coisas”.

Outro lado
Se os poucos argentinos radicados em Mato Grosso do Sul não se queixam do tratamento recebido em terras brasileiras, o mesmo acontece com aqueles que vão passear na Argentina. “Lá fazem uma brincadeira dizendo: ‘os argentinos odeiam amar os brasileiros’ e ‘os brasileiros amam odiar os argentinos”, lembra o diretor-comercial de uma agência de turismo da Capital, William Morais. Ele entende da relação entre os dois países, principalmente no que se refere ao turismo. Atualmente, a Argentina passou a ser o destino preferido do turista brasileiro. Vários motivos desencadeiam esse processo. “Viajei algumas vezes para lá, os argentinos são muitos receptivos, sabem receber”, avalia.
A dona de outra agência de turismo da Capital, Celina Pazin, diz que o brasileiro procura o país vizinho por causa do estilo europeu que aparece em várias cidades, principalmente em Buenos Aires, sem contar a valorização do real diante do peso, a aproximidade geográfica e a língua espanhola, que facilita a comunicação dos brasileiros por lá. “São muitas as vantagens para os brasileiros. Uma viagem para Buenos Aires, em muitas situações, sai muito mais barata do que para Porto Seguro, por exemplo”, lembra Celina.
O estudante de administração Fabricio Barbosa, 22 anos, que foi duas vezes para a Argentina no ano passado, acha que o brasileiro tem mais implicância com o argentino do que o contrário. “Ele sabem muito da nossa música, das coisas do Brasil. Agora que começo a conhecer as coisas legais deles. Fui muito bem tratado quando estive por lá”, lembra. “O problema entre os brasileiros e argentinos é um só, saber quem é melhor: Pelé ou Maradona? Deixando esse assunto de lado, que sempre dará problema, o resto é perfeito entre as duas partes”, brinca  Celina.

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