Quinta, 23 de Novembro de 2017

Reminiscências IV

23 FEV 2010Por 03h:51
Prossigo na narrativa da minha experiência na vida pública. No total, são cinco episódios, dos quais dois narrei no artigo anterior. Um belo dia recebi um telefonema de d. Maria Aparecida Pedrossian, que me convidou para ser coordenador-geral de comunicação do governo do Estado. O dr. Pedro Pedrossian havia extinto a Secretaria de Comunicação Social, criando em seu lugar a coordenadoria. Aceitei. Isto aconteceu no período de governo que se encerrou em março de 1983. Algum tempo depois de tomar posse, já na rotina do trabalho, recebi a informação do secretário de Fazenda de que estavam liberando uma determinada importância para pagamento a um órgão da grande imprensa – por utilização de espaço publicitário – cujo valor correspondia, mais ou menos, ao total do que estava empenhado para o pagamento de toda a imprensa do interior – sofrida imprensa –: rádios e jornais, com a mesma finalidade: espaço publicitário. Não tive dúvidas: chamamos rapidamente os diretores dos veículos do interior e pagamos a todos. No dia seguinte aos pagamentos, entrou em minha sala o secretário de Fazenda com os cabelos desalinhados e com expressão de profundo desespero, dizendo que eu havia acabado com a sua vida, pois quando o dr. Pedro soubesse do acontecido iria demiti-lo. E eu perguntei: “Por quê?” E ele disse: “ Você desviou o dinheiro e pagou a imprensa do interior”. Respondi: “Mas quem fez isso fui eu; você não teve nenhuma participação. Você, ao liberar o dinheiro, me disse qual era a sua destinação. Ponto. Você cumpriu com a determinação do governador”. Aí ele deu um profundo suspiro dizendo: “É mesmo. Eu não descumpri a ordem”. E saiu totalmente aliviado. Na tarde daquele mesmo dia, o governador me chamou em seu gabinete e perguntou o que havia acontecido. E eu falei: “O secretário me disse qual era a destinação dessa verba, mas ao ver o valor, vi que com esse dinheiro pagaríamos toda a verba empenhada para a imprensa do interior”. Argumentei que eu estava no governo para auxiliá-lo e que a imprensa do interior, que sempre lhe foi solidária, estava a pão e água há muito tempo. Também disse que eu sabia que pelo poder de fogo do tal grande veículo, logo o governo liberaria uma outra verba para o pagamento. E ele, disse: “Está bem. Mas não faça mais isso.” A imprensa tem um papel importantíssimo na divulgação dos atos e fatos do governo, por isso, pela utilização do espaço destinado a essa finalidade – que é a forma de comercialização do seu produto: espaço – recebe regular e legalmente um pagamento. O quarto episódio: num fim de ano, novamente os donos de jornais e de rádios do interior, estavam aguardando o pagamento prometido e empenhado. Passaram o Natal em Campo Grande, longe de seus familiares, na esperança de receber. Havia uma verba. Falei com o secretário de Fazenda e combinamos que pagaríamos o pessoal do interior, mas não falaríamos nada a ninguém, para não dar margem a reclamações, num dito “acordo de cavalheiros”. E assim foi feito. Antes do fim de ano. No dia 2 de janeiro pela manhã, estava ainda no meu escritório antes de me dirigir ao Parque dos Poderes, quando recebi um telefonema de um grande empresário dizendo saber que eu havia destinado a verba existente para a imprensa do interior e essa verba era do seu veículo. E disse mais, se estivesse no meu lugar, agiria da forma que eu fiz, mas ele não estava no meu lugar e aquele dinheiro era da sua empresa e a partir de agora, quando eu quisesse divulgação do meu “sindicatozinho” (na época eu era presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis), que procurasse a imprensa do interior, e desligou o telefone na minha cara. Moral da história: essa lorota de “acordo de cavalheiros” é uma grande lorota mesmo. Todas as vezes que ouço essa expressão, fico observando: logo, logo alguém vai roer a corda. O quinto episódio: final de governo. Novamente a imprensa do interior queria receber o seu crédito já empenhado e a oportunidade era aquela, porque o governo seguinte não teria compromisso inicial, pois não havia contratado nada ainda. E havia aquele monte de gente esperando. Quando chegou a informação de que não haveria recursos, dirigi-me ao local onde se encontravam, colocando-me no meio deles, dizendo com todas as letras desta vez não haveria pagamento e eu sempre os recebia um a um, mas que não iria fazer dessa forma desta vez, porque a informação era a mesma para todos e eu preferia encará-los juntos. Acabei de falar, despedi-me de um por um, e saí. Assim, dessa forma, encerrei a minha experiência na administração pública. No dia seguinte, tomava posse a nova administração estadual, presidida pelo dr. Wilson Barbosa Martins.

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