Sexta, 17 de Novembro de 2017

Recordando XXXVII

27 ABR 2010Por 19h:15

Há coisas que a gente só vai constatar com o passar dos tempos, eu sempre tive pra mim, que apenas eu e mais uma meia dúzia de amigos, tinha o Auro como pessoa especial. Refiro-me a Auro Corrêa da Costa, fraterno e inesquecível amigo, pois a cada momento que lembro dele, as pessoas em volta não me deixam terminar a frase, sempre exaltando duas excelsas qualidades, me viro um tanto surpreso para quem fala e ouço o que diz, sempre uma repetição de elogios. Não sabia, mas ouço com indizível prazer, os mais variados comentários carregados de elogios ao querido amigo. Por que a surpresa? Eu sempre tive pra mim, que o queria tanto, que ele não fosse assim tão amado por todos quantos com ele conviveram. Pois dia desses, em nossa marcha matinal pelo Belmar Fidalgo, numa roda eclética, contando uma de suas histórias, detonei, sem querer, uma explosão de elogios partindo de todos que lá estavam. Eu sabia que Auro era estimado, mas não nesse patamar tão alto. E olhe que Auro poderia ter arestas e razões para algumas críticas, mas tirava isso tudo "de letra", como ele costumava dizer. Sabe por quê? Por ser sobrinho do doutor Fernando Corrêa da Costa (cito o fato apenas porque sendo ele chefe da UDN, certamente os pessedistas lhe fechariam as portas). Besteira, aí é que as portas se lhe abriam prazerosamente, o que evidenciava que sua grandeza vencia até mesmo essas bobagens que contaminavam, ou tentavam contaminar, um bom relacionamento social. É claro que isso exigia muita habilidade, coisa que sobrava no Auro. Essa habilidade ele demonstrava no trato diário com a gente, e lhes conto como. Eu passava um momento difícil em minha loja de negócios e pouco lhe visitava, mas ele ia quase diariamente me ver em meu escritório, não sem antes "eu venho te ver, seu FDP, porque gosta muito de você, e amizade é como uma fogueira, se você não atiçar o fogo de vez em quando, o fogo apaga" e lá se vai a amizade". Ele era assim, até xigando com ácidas palavras, se fazia admirar, pois sempre depois do palavrão vinha um aceno fraterno da verdadeira amizade, cujo fogo sempre bem soprado, não apaga nunca, ele, simplesmente não deixava apagar.

Auro era homem de rara cultura, centrada especialmente em conhecimentos gerais, talvez ele devesse isso à sua profissão de piloto naval, pois assim conhecia o mundo todo, tendo talvez aí, haurido tanto conhecimento. Não havia país que ele não conhecesse e, sábio, vivia nesses lugares onde se fazia amigo, tamanha sua habilidade de relacionamento. Na França, aprimorou seus conhecimentos de bom enólogo que era, na Alemanha escolhia com desusado carinho as bebidas lá produzidas, especialmente seu famoso cognac, e assim ia acumulando seus conhecimentos. Jamais esnobava isso, simplesmente conhecia e pronto. No Rotary Clube aumentou seu já grande círculo de amizades e foi presidente e depois governador Distrital, onde mais uma vez mostrou grande habilidade na missão a tão poucos confiada, por força de seu cargo, tinha que percorrer inúmeras cidades do oeste de São Paulo e de todo o antigo Mato Grosso, aumentando consideravelmente seu número de amigos e admiradores. Teve destacada atuação no cargo deixando um serviço digno de ser admirado e continuado pelos sucessores.

Auro foi convocado mais uma vez para prestar serviço público, desta vez como presidente da Bacias do Prata, alto cargo que exigia muita dedicação e conhecimento que ele tinha de navegação, por força disso, foi morar em Corumbá onde deixou aquela marca que tanto o definia, a de fazer amigos e ser admirado. Sua administração mais uma vez veio mostrar sua imensa capacidade. Depois de alguns anos, cumprida sua última missão pública, voltou a morar em Campo Grande, onde viveu cercado de carinho.

Um dia de sábado, regressando da fazenda à tardinha, encontrei uma filha que me aguardava na porta de entrada, pois tanto ela como os demais filhos sabiam o quanto Auro significava para mim.

"Papai, tenho uma notícia muito desagradável para lhe dar: seu amigo Auro morreu". Fora vítima de um desastre no Rio, onde estava a passeio. Imediatamente telefonei para Phaena, querida amiga e agora viúva dele. Contou-me alguns detalhes e posteriormente fui visitá-la com minha mulher. A lacuna deixada por ele permanece até hoje, quando até de suas broncas a gente sente falta. Grande piloto naval que foi, tenho certeza que, dono de imensa fé, também navega habilmente do outro lado...

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