Sábado, 18 de Novembro de 2017

Rádio Saudade: desabafo de um ouvinte estressado

15 ABR 2010Por 03h:18
“Infeliz de quem passa pelo mundo, buscando no amor felicidade...
A mais doce ilusão dura um segundo, mas dura a vida inteira uma saudade”
(Antônio Nahas, abrindo o programa “Colar de tangos e poesias”, pela Rádio Cultura de Campo Grande, nos anos 50)

A cidade nem sonhava ainda com a televisão. Só as rádios preenchiam o vazio das noites campo-grandenses. O relógio da praça bate nove badaladas. Todos os rádios sintonizam em 1.370 kc, esperando a voz incomparável de Antônio Nahas. Termina o “grande jornal falado X4” ... a poesia está no ar!
Com os versos de um autor desconhecido, Nahas abre o programa que prende a atenção dos homens e provoca suspiros nas mulheres.
Quem resiste a uma linda poesia? Ainda mais quando o declamador é dono de uma voz “grave”, que sabia dosar com perfeita dicção carregada de sentimentos e  romantismo envolvente.
“Está no ar: “Colar de tangos e poesias”... Quanta saudade!
Durante uma hora, a cidade parecia hipnotizada. Com exceção dos notívagos que flutuavam pelos poucos bares ou nas últimas sessões do Alhambra e Santa Helena, as fracas lâmpadas que iluminavam as casas mantinham-se acesas, denunciando que ali a poesia pairava entre um tango e outro.
Hoje, as modernas FMs nem imaginam o que significava levar romance por suas ondas limpas, que multiplicariam o impacto de vozes dos grandes locutores dos bons tempos.
No lugar da impostação está a gritaria (desnecessária para os recursos sonoros de hoje). Em lugar do romance e da elegância dos programas, uma zoeira padronizada, numa disputa maluca por audiência, muito mais voltada para o comercial que para a qualidade de programação.
Mesmo quando se tenta reviver os bons programas musicais, o próprio ouvinte, já moldado às novas modalidades, não acolhe as “ novidades” e, sem saber, deixa de viver momentos agradáveis, que alimentam a alma e despertam nos corações a verdadeira paixão pelas boas coisas da vida.
Somente os que viveram os tempos do rádio verdade entenderão estas linhas saudosas que fui buscar no eco da saudade.
Antônio Nahas partiu ainda moço para o outro plano, mas deixou em seus seguidores, entre eles Walmor Aguiar e Barsasnulfo Pereira (ainda vivos), a marca de um rádio que, mesmo não tendo os recursos tecnológicos de hoje, cumpriu a missão de informar sem deformar, envolver sem abraçar e conduzir ao sonho os felizes ouvintes daquela época.
“Tempo bom, não volta mais!” Lá vou eu pros meus LPs!
 
Edson Contar, jornalista e escritor

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