Cidades

Ecossistema raro

Proteção de araucárias no sul do país está sob ameaça

Proteção de araucárias no sul do país está sob ameaça

FOLHA

16/05/2011 - 21h00
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Os esforços para conservar a mata de araucárias, vegetação típica do Sul e um dos ecossistemas menos preservados no Brasil, têm esbarrado na resistência de proprietários rurais e na falta de estrutura do governo federal.

Das oito unidades de conservação planejadas pelo Ministério do Meio Ambiente, a serem criadas no Paraná e em Santa Catarina, duas estão engavetadas por pressão de ruralistas e outras duas que já foram criadas estão sendo questionadas na Justiça por produtores.

Das outras quatro reservas decretadas, três ainda enfrentam resistências de parte dos proprietários, que dificultam o andamento das ações de preservação.

Até agora, nenhum proprietário cujas terras foram incluídas nas reservas foi indenizado --só a partir disso a área é considerada pública. No Paraná, a região em que estão as reservas é uma das principais produtoras de soja e milho e até hoje há fazendeiros no local. Em outras unidades, há também criação de gado, exploração de pinus e cultivo de erva-mate.

Os produtores, que não precisam sair enquanto não forem indenizados, argumentam que as áreas atingidas estão antropizadas (ocupadas pelo homem) há décadas e que não faz sentido incluí-las nas unidades. Para eles, as reservas foram criadas para o governo "mostrar serviço", sem checar se de fato havia ou não o que preservar.

"Eles não vieram in loco. Pegaram uma foto [de satélite] e disseram: 'Aqui tem verdinho. Vamos fazer um parque aqui'", diz Gustavo Ribas Netto, 40, cuja propriedade foi integralmente incluída no Parque Nacional dos Campos Gerais (a 120 km de Curitiba).

Sua fazenda, de mil hectares, produz aproximadamente 1.200 toneladas de soja, milho e feijão por ano. Lá também são criadas cerca de 900 cabeças de gado.

O Ministério do Meio Ambiente diz que é possível --e necessário-- recuperar as áreas degradadas, para garantir a preservação da mata de araucárias. Hoje, só restam 3% desse ecossistema.

"A pressão [sobre as áreas preservadas] é contínua e crescente", afirma João de Deus Medeiros, diretor do departamento de Florestas do ministério. "Temos que trabalhar com a perspectiva de recuperação."

Medeiros também diz que houve "intenso" trabalho de campo e realização de várias audiências públicas --a despeito da resistência de alguns proprietários na época.

Segundo ele, algumas audiências foram feitas com proteção da Polícia Federal e biólogos do ministério chegaram a ser agredidos. Até agora, todas as ações que pediam na Justiça a revisão das áreas de conservação foram negadas. Alguns produtores, porém, continuam recorrendo das decisões, inclusive no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal).

Na opinião deles, o governo poderia ter criado unidades de conservação mistas, que permitissem a participação dos proprietários. "A gente aprende a preservar desde pequeno. Isso aqui é nossa herança", diz Vespasiano Bittencourt, 53, cuja propriedade (que tem 50% da área preservada) foi incluída numa das reservas.

O Ministério do Meio Ambiente, por sua vez, afirma que foi aberto um prazo para a apresentação de propostas de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) para as regiões atingidas, mas diz que nada foi apresentado.

Estrutura Precária

Antes de desabar, teto de UPA acumulava anos de infiltrações em Campo Grande

Unidade acumula histórico de goteiras e alagamentos desde 2017 e teve reforma de cerca de R$ 1,7 milhão prevista antes de parte do forro cair durante temporal.

11/09/2026 16h29

Parte do teto da UPA desabou e deixou a estrutura interna exposta em Campo Grande.

Parte do teto da UPA desabou e deixou a estrutura interna exposta em Campo Grande. Foto: Reprodução.

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“Vai cair o mundo todo”. A frase, dita por uma paciente assustada enquanto registrava os estragos provocados pelo temporal desta quinta-feira (10), resumiu os momentos de tensão vividos dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Universitário, em Campo Grande. Parte do forro da recepção veio abaixo, vidros laterais caíram e pacientes tiveram de deixar o local.

O episódio, porém, não foi o primeiro em que a chuva colocou à prova a estrutura da unidade. Um levantamento feito pelo Correio do Estado mostra que há pelo menos nove anos existem registros de infiltrações, alagamentos e problemas relacionados ao teto e ao escoamento da água na UPA.

Ao longo desse período, houve reparos emergenciais, interdição da farmácia, investigação do Ministério Público, manutenção de telhado, laje e calhas e até uma licitação de R$ 1,69 milhão que previa expressamente a reforma do telhado. O procedimento licitatório acabou suspenso em 2023.

Mais recentemente, em fevereiro deste ano, outra tempestade voltou a provocar infiltrações e alagamentos dentro da unidade. Na ocasião, a Prefeitura informou que a UPA estava passando por “reforma e manutenção estrutural”, inclusive com intervenções em pontos de infiltração.

Sete meses depois, o temporal desta quinta-feira terminou com parte do forro no chão.

“Vai cair o mundo todo”

A tempestade que atingiu Campo Grande no fim da tarde desta quinta-feira teve rajadas que chegaram a 84 km/h e deixou um rastro de estragos pela cidade.

Na UPA Universitário, localizada na região sul da Capital, parte do forro de PVC caiu justamente sobre a área de espera da recepção. As ferragens que sustentavam a estrutura ficaram retorcidas e vidros laterais também se desprenderam.

Pacientes foram retirados do local. Apesar da dimensão dos danos, não houve registro de feridos.

 

Vídeos feitos durante o temporal mostram a situação dentro da unidade e o susto de quem estava no prédio. Enquanto registrava os estragos, uma paciente reagiu: “Vai cair o mundo todo”.

O episódio desta quinta-feira é o capítulo mais recente de um problema que atravessa diferentes administrações municipais.

Problemas aparecem pelo menos desde 2017

Há registros públicos de problemas relacionados à chuva na UPA Universitário desde pelo menos janeiro de 2017.

Naquele ano, uma chuva deixou a unidade alagada e levou equipes das secretarias municipais de Saúde e Infraestrutura a realizarem uma vistoria. Funcionários relataram que a situação era recorrente e prejudicava os serviços.

A inspeção identificou problemas no teto e no sistema de escoamento da água. Também foram constatadas infiltrações em diferentes setores da UPA, entre eles a classificação de risco, farmácia, auditório e áreas administrativas. Reparos emergenciais foram anunciados.

O problema, contudo, reapareceria nos anos seguintes.

Chuva destruiu teto da farmácia

Um dos episódios mais graves ocorreu em fevereiro de 2021. Durante uma forte chuva, a água passou pelo teto da farmácia da UPA e transformou o interior do espaço em uma espécie de “cachoeira”.

O problema comprometeu a estrutura e levou à interdição da farmácia. A consequência se prolongou muito além daquela tempestade.

Em março de 2022, mais de um ano depois do alagamento, pacientes ainda precisavam procurar outras unidades de saúde para retirar os medicamentos prescritos após atendimento na UPA Universitário.

A situação chegou ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Em 2022, foi instaurado inquérito civil para apurar irregularidades estruturais e sanitárias na unidade. Inspeção realizada pela Vigilância Sanitária constatou que a farmácia apresentava teto e paredes com infiltrações, umidade, mofo e pintura danificada.

A farmácia somente seria reaberta em maio de 2024, cerca de três anos depois do episódio que levou à sua interdição.

Prefeitura mexeu em telhado, laje e calhas

Antes disso, em dezembro de 2022, a própria Prefeitura de Campo Grande anunciou uma frente de manutenção preventiva e reparos emergenciais em unidades de saúde.

Na UPA Universitário, segundo comunicado oficial da administração municipal, foram realizados reparos na tubulação de drenagem pluvial, revisão do telhado e da laje e manutenção das calhas.

As intervenções, entretanto, não encerraram os registros de problemas relacionados às chuvas.

Reforma de R$ 1,69 milhão previa telhado

Em julho de 2023, a Prefeitura abriu a Concorrência nº 21/2023 para contratar uma empresa responsável pela reforma e ampliação da UPA Universitário. O investimento máximo previsto era de cerca de R$ 1,7 milhão.

Não se tratava apenas de pintura ou de pequenas adequações. O projeto anunciado pela própria administração municipal previa melhorias em toda a estrutura e mencionava expressamente a reforma do telhado, além da revisão das redes hidráulica e elétrica e de adequações às normas sanitárias.

As empresas interessadas deveriam entregar a documentação e as propostas até 21 de agosto daquele ano. No mesmo dia em que terminaria o prazo, porém, a licitação foi suspensa.

A reportagem solicitou à Prefeitura esclarecimentos para saber se o procedimento foi posteriormente retomado ou substituído por outra contratação e, principalmente, se a reforma do telhado prevista naquele projeto chegou a ser efetivamente executada.

Meses depois, água entrou pelas luminárias

Pouco mais de três meses após a suspensão da licitação, a chuva voltou a causar problemas na unidade. Em novembro de 2023, durante outro temporal, a água entrou pela região de uma luminária na sala de observação.

Imagens daquele episódio mostram água caindo dentro do ambiente e uma funcionária retirando um paciente que estava em uma maca próxima ao ponto atingido.

Na ocasião, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que uma árvore havia caído durante o temporal e destelhado parte da unidade, provocando a infiltração.

Pacientes precisaram ser remanejados e equipes de manutenção foram acionadas para executar reparos paliativos. Na mesma resposta, a Sesau informou que a UPA estava incluída em um cronograma de intervenções destinado ao reparo de problemas estruturais.

Em outubro de 2024, a cena se repetiu. Durante mais um temporal em Campo Grande, água entrou pelas luminárias da UPA Universitário e pacientes tiveram de ser retirados de algumas salas.

Problemas continuaram em 2026

O histórico chegou a 2026. Em janeiro, uma fiscalização do Conselho Municipal de Saúde encontrou uma série de irregularidades na UPA Universitário. O relatório encaminhado à Secretaria Municipal de Saúde descreveu um “quadro persistente e grave de fragilidades” e apontou que os problemas observados não eram apenas pontuais, mas estruturais e sistêmicos.

Um mês depois, em 19 de fevereiro, a chuva voltou a entrar na unidade. Vídeos gravados durante o temporal mostraram água escorrendo por paredes de uma sala destinada ao atendimento de pacientes acamados, goteiras próximas à entrada e pontos do piso alagados.

Uma paciente que registrou a situação chegou a reclamar que parecia chover mais dentro da unidade do que do lado de fora.

Questionada naquele momento, a Prefeitura informou que a UPA Universitário já estava "em processo de reforma e manutenção estrutural, incluindo intervenções em pontos com infiltração". 

Segundo a administração municipal, equipes de manutenção foram acionadas para vistoriar o prédio assim que a intensidade da chuva diminuísse e medidas corretivas e preventivas estavam sendo adotadas. Isso ocorreu há menos de sete meses.

De infiltrações ao forro no chão

A sequência dos acontecimentos coloca agora novas questões sobre as condições da unidade. O problema que em diferentes momentos apareceu na forma de goteiras, infiltrações, água passando por luminárias e alagamentos terminou, nesta quinta-feira, com parte do forro da recepção no chão e pacientes sendo retirados durante uma tempestade.

Correio do Estado questionou a Prefeitura de Campo Grande sobre o destino da licitação de R$ 1,69 milhão aberta em 2023, se a reforma do telhado prevista naquele processo chegou a ser executada por meio daquela ou de outra contratação e quais intervenções foram realizadas desde então.

A reportagem também solicitou informações sobre a última vistoria e manutenção do telhado, cobertura e sistema de drenagem pluvial da unidade antes do temporal desta quinta-feira, além dos serviços realizados depois das infiltrações registradas em fevereiro deste ano.

A Prefeitura foi questionada ainda sobre a extensão dos danos provocados pelo temporal, eventual comprometimento estrutural, custo dos novos reparos e prazo para recuperação das áreas atingidas.

Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

Rescaldo Chuva

Sem luz há quase 24 horas, moradores da Capital improvisam rotina

Famílias enfrentam falta de água, risco de estragar alimentos e comércio funcionando com caixas térmicas após temporal

11/09/2026 15h30

Até o início da manhã já haviam sido contabilizados mais de 100 registros de árvores caídas

Até o início da manhã já haviam sido contabilizados mais de 100 registros de árvores caídas Leo Ribeiro/Correio do Estado

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Moradores de diferentes pontos de Campo Grande passam por uma sexta-feira (11), daquelas  tentando manter a rotina possível depois de completarem quase 24 horas sem energia elétrica. Na Vila Olinda, famílias precisaram recorrer a caixas térmicas para preservar alimentos e bebidas, enquanto em outras casas a falta de luz também interrompeu o abastecimento de água. O problema é consequência dos estragos provocados pelo temporal que atingiu a Capital na tarde de ontem, quinta-feira (10).

Na Vila Olinda, Izabella Gomes Escobar, 22 anos, estudante, conta que a rua onde mora permanece sem energia desde as 18h de quinta-feira. A família vive sobre um comércio e também mantém outro estabelecimento na mesma região, ambos foram afetados pela falta de luz.

Segundo ela, a principal dificuldade é a falta de uma previsão precisa para o restabelecimento. “Cada hora eles dão uma previsão diferente. Ontem falaram que ia voltar às 6h da manhã de hoje, depois falaram às 9h e agora disseram que até 16h poderia voltar, mas havia chances de não voltar hoje.”

Sem energia para carregar os aparelhos em casa, Izabella precisou sair do bairro para conseguir recarregar os celulares dela e dos pais. O problema também chegou diretamente ao comércio da família. No restaurante, alimentos que precisam de refrigeração, como carnes e sorvetes, estão entre as maiores preocupações. No bar, as bebidas foram colocadas em caixas térmicas com gelo e sal para tentar preservar a temperatura. “É meio que se virar com o que dá, mas não saber se vai ou não voltar a energia hoje complica tudo”, relata.

Mesmo com as limitações, a família decidiu abrir o restaurante nesta sexta-feira na expectativa de que o fornecimento fosse normalizado. Sem energia, porém, o buffet não pôde ser utilizado para manter a comida aquecida. “O plano B que era possível nós fizemos. Fizemos almoço hoje com o que dava e, mesmo sem luz, tivemos um movimento bom. Colocamos as bebidas em caixas térmicas com gelo para manter refrigerado. Agora resta esperar e torcer para voltar logo essa energia!, disse a jovem em entrevista ao jornal Correio do Estado. 

A preocupação aumenta diante da possibilidade de novas chuvas. “Preocupado a gente fica, ainda mais que tem outro alerta de chuva para hoje. Fica difícil quando as coisas não estão no nosso controle”, afirma Onivaldo Mandacari, 57 anos, proprietário do comércio.

Na casa da servidora pública Lindalva Gomes de Lima, 53 anos, o problema ganhou uma dimensão ainda maior. A residência utiliza água de poço, bombeada para a caixa d'água por meio de um sistema elétrico. Com a falta de energia, o abastecimento também foi interrompido.

Ela conta que, durante o temporal, houve um curto-circuito na rede elétrica em frente à residência. Depois de um período sem energia, o fornecimento voltou parcialmente, mas com oscilações que impedem o uso dos aparelhos.

“De repente voltou meia fase e permanece até hoje. Só que essa meia fase está assim: a geladeira não liga, todos os eletrodomésticos têm que ficar desligados porque está oscilando muito."A situação, segundo Lindalva, afeta tarefas básicas do dia a dia. Sem ventilador, a família enfrenta o calor e o aumento dos mosquitos. Sem a bomba elétrica, também ficou sem água.

O contato com a concessionária já foi feito, mas a moradora afirma que ainda não recebeu uma solução para o problema.

“Ficaram de dar um retorno, que a cidade toda está em um caos, porém acredito que não fizeram nada até agora para ajudar a amenizar a nossa situação. Porque do jeito que está, ficou ontem e está até hoje. Permanece da mesma forma, a meia fase oscilando, não tem como ligar nada. Sem energia, está um caos!, lamenta a servildora.

Temporal

Os relatos são consequência direta dos estragos provocados pelo temporal que atingiu Campo Grande no fim da tarde de quinta-feira. Segundo dados citados pelo Correio do Estado, foram registrados 24,4 milímetros de chuva em apenas 28 minutos e 3.095 raios em um intervalo de 36 minutos. As rajadas chegaram a 83 km/h.

A força da tempestade derrubou árvores em diferentes regiões, atingiu postes, provocou alagamentos, danos em imóveis e deixou dezenas de bairros com interrupções no fornecimento de energia. Até o início da manhã desta sexta-feira, mais de 100 registros de árvores caídas haviam sido contabilizados.

A Energisa informou que, até as 5h30 desta sexta-feira, havia restabelecido o fornecimento para 77% dos consumidores afetados. A concessionária ampliou as equipes e trouxe trabalhadores de outros estados para atuar na recuperação da rede, incluindo a substituição de postes e reparos em estruturas danificadas.

 

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