Segunda, 20 de Novembro de 2017

Problemas de saúde castigam catadores

25 FEV 2010Por 04h:27
Frieiras, problemas de pele, dores nas costas, cortes ou até ferimentos mais graves. O mesmo lixo que gera renda e sustento também traz doenças de todos os tipos para os catadores, comerciantes e moradores da região do lixão, na saída para Sidrolândia, em Campo Grande. No local, eles convivem com animais que transmitem doenças, como ratos, baratas e moscas. Os trabalhadores também estão expostos a riscos por conta de produtos químicos jogados fora de forma irregular e contaminação com o lixo hospitalar. Os trabalhadores relatam que já viram vários colegas com cortes simples que não foram tratados e acarretaram quadros de infecções, ou que, devido às dores nas costas, hoje, já não podem mais trabalhar. É o caso do pai de um adolescente de 15 anos, que não terá o nome divulgado. Ele foi obrigado a parar de trabalhar por conta de problemas na coluna. “Minha mãe diz que meu pai ficou assim na catação. Não é fácil, pois fica abaixando e levantando o tempo todo. Ele não aguentou mais, então, tive que vir ajudá-lo”, explica. Outra situação de risco do jovem é com a alimentação. Ele diz que come com as mãos sujas mesmo depois de passar a noite toda trabalhando no lixão. “Não dá nada não, aqui, o que não mata engorda”, fala o jovem, despreocupado. Cortes Os catadores usam ganchos (pedaços de ferro para abrir as sacolas e puxar alguns produtos descarregados pelos caminhões). Nem todos usam luvas, botas ou outros materiais de proteção adequados. Muitas vezes, acabam tendo cortes durante as atividades, e nem sempre procuram imediatamente o atendimento de saúde adequado. “Tenho vários cortes nas mãos e as frieiras incomodam muito, mas uso cremes e uma pomada indicada pelo médico do posto”, explica uma catadora, que prefere não se identificar. Ela conta que também fica muita atenta ao lixo hospitalar. “Eu já furei a mão em agulha, mas, graças a Deus, não deixam mais o lixo do hospital chegar aqui. Só às vezes que aparece”, explica. Entre alguns catadores, reclamar de doenças é considerado uma frescura. “Aqui é para trabalhar gente forte”, ressalta a mulher. Apesar disso, ela acredita que seria bom ter um programa de saúde voltado, especificamente, para os trabalhadores. “Só que estamos todos cansados de ouvir promessas”, afirma. Saúde De acordo com especialistas, os problemas são agravados pela falta de cuidados durante coleta em busca dos materiais recicláveis. Além da falta de equipamentos de proteção, outro agravante é a má postura durante o período de trabalho. Algumas destas deficiências podem se tornar permanentes ou até mesmo invalidar os trabalhadores. Segundo a enfermeira especialista do trabalho, Lais Furlan, a exposição dos catadores aos resíduos, inclusive à poeira, é fator determinante para alergias e doenças. “É um local insalubre onde uso de equipamento de proteção individual é extremamente necessário, mas sabemos que são poucos os que usam luvas ou botas”, explica. O protetor solar também é esquecido pelos catadores que, constantemente, estão expostos ao sol. “O câncer de pele é um risco, pois eles disseram que nunca usam o produto e se protegem com panos e camisetas”. Para a enfermeira, o ideal seria uma política de saúde direcionada a alertar estes trabalhadores sobre os problemas de saúde que a exposição ao sol pode causar ao longo do tempo.

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