O grafite começou como uma arte pública, feita nas ruas, à vista de todos. Aos poucos, no entanto, ganhou espaços privados. Primeiro, foram as paredes de empresas e lojas descoladas. Agora, os traços marcantes dessa expressão artística marcam presença em residências, mas sempre harmonizando com o ambiente em volta.
É importante que o desenho não brigue com a decoração. A arquiteta Andréa Hermes, do
Atelier de Arquitetura, conta que, em um projeto que fez, deu total liberdade aos artistas, mas só colocou uma restrição: as cores seriam as que ela escolhesse, para que combinassem com o resto dos objetos. A artista Erica Mizutani, por sua vez, afirma que a maioria dos clientes lhe dão liberdade total de trabalho, mas quase sempre ditam coordenadas sobre os tons. “Respeito o ambiente, e decorações mais intensas pedem menos contrastes, já as mais sóbrias permitem ousadias”, afirma a artista.
O designer Alê Ferro conta que, na Casa Cor, fez um ambiente que era o quarto grafitado de um adolescente. Desde então, passou a ser procurado para deixar sua marca na residência das pessoas. Ele fala que o trabalho é um pouco diferente daquele feito em ambientes públicos. “Na rua, a tinta e o tempo são meus, e a obra é para a cidade.” Como muitos clientes pedem desenhos baseados em coisas que o grafiteiro já fez, também há algumas adaptações para o cômodo. Já os materiais são os mesmos do grafite ao ar livre: tinta latex, spray e caneta.
Ferro diz que é muito chamado para fazer coisas para crianças. “Meu traço é mais divertido, atende bem a esse público”, conta. Nesses casos, ele evita tintas que tenham cheiros mais fortes. Erica Mizutani, por outro lado, identifica casais jovens, alguns com filhos, como os maiores clientes. “Faço os trabalhos geralmente na sala de estar, sala de jantar e no hall de entrada”, afirma. Ela desenha com pincel e prefere tinta acrílica, pois “as cores ficam mais firmes e duradouras”.
O suporte também é levado em conta. Segundo Andréa Hermes, o custo do grafite não é baixo e, por isso, é mais fácil convencer o cliente a ter uma obra em casa quando ela não é feita na parede, mas sim em uma tela ou uma lona, que podem ser movimentadas. Os suportes móveis, por exemplo, possibilitam que o desenho seja levado para uma nova casa quando a pessoa se muda.
Tanto Erica Mizutani quanto Ferro destacam que as pessoas os procuram porque já conhecem seus trabalhos e estilos. Quem quiser ter um desenho em casa, portanto, deve escolher um artista de que goste, até porque, como diz o designer, “o grafite é que nem uma tatuagem na casa, a pessoa vai ver todos os dias”.

