Quarta, 22 de Novembro de 2017

Personagem Geraldão fica órfão

13 MAR 2010Por 07h:27
Desenhos com traços mal feitos. Personagens, que para mostrar movimentos, contam com várias pernas e braços. Temas polêmicos como incesto, masturbação, solidão, violência, complexo de inferioridade. Eram esses os universos que o cartunista Glauco apresentava diariamente aos leitores. Ah, sem esquecer o mais importante: todos vinham embalados com muito humor. O tipo de humor que possibilitava, por vias tortas, à reflexão. Muitos que tomavam conhecimento da criações deste paranaense, morto na madrugada de ontem, em um primeiro momento, se chocavam. Mais adiante percebiam que a intenção do cartunista não era simplesmente ridicularizar as situações, mas colocar em primeiro plano os excessos cotidianos. Nas situações vividas pelos personagens que criou – Doy Jorge, Dona Marta, Geraldinho, Faquinha, Zé do Apocalipse, e, principalmente, Geraldão – apareciam muito das nossas neuroses típicas, que passeia pelo medo de ficar sozinho à violência, da vontade de consumir sem restrição o culto às celebridades. Glauco iniciou a carreira nos anos 1970, porém, foi na década seguinte que se tornou referência daqueles que liam a “Folha de S. Paulo” ou, então, a antológica “Chiclete com banana”. Junto com Laerte e Angeli, Glauco, da sua maneira, assim como um cronista, colocou lente de aumento sobre aspectos do fim da ditadura militar, impechamant do Collor, chegando aos momento atual. Ler as tiras de Glauco e ver seus personagens era como encontrar amigos, que o tempo estabeleceu. Era fácil reconhecer nos seus tipos pessoas próximas ou conhecidas – e, principalmente, muito de nós mesmos. Sua influência é facilmente detectável em cartunistas como Allan Siber e André Dahmer, que dão novo vigor ao quadrinho nacional atualmente. Agora, não somente Geraldão fica órfão, mas, de certa forma, todos, sem o humor de Glauco.

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