Quarta, 22 de Novembro de 2017

Pavimentação abre fronteira agrícola

2 AGO 2010Por 06h:39
Carlos Henrique Braga, enviado especial a Coxim

O Norte de Mato Grosso do Sul quer sair do isolamento econômico. Para chegar lá, eles escolheram o asfalto da BR-359 como caminho e o eucalipto como combustível

Dentre todos os destinos a que a BR-359 pode levar, o que mais interessa a cidade de Coxim, no Norte do Estado, é  ser grande como Três Lagoas. Esperada há décadas, a pavimentação do trecho entre Coxim e Goiás vai abrir caminhos para a produção agropecuária das dez maiores cidades da região e tirar do isolamento cerca de 4 milhões de hectares destinados à atividade rural, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O asfalto deu impulso aos planos de Coxim, maior cidade da região: em uma década, ela quer tornar-se polo de papel e celulose, como Três Lagoas, geográfica e economicamente distante do isolado e pouco habitado Norte.

Saída para a complicada logística, o asfaltamento da via de 240 quilômetros é possível porque entrou nos planos do Programa de Aceleração do Crescimemento (PAC), do governo federal. Custo: mais de R$ 240 milhões. “A pavimentação é o resgate do desenvolvimento, até então paralisado”, analisa o deputado estadual Junior Mocchi (PMDB). O político encabeça frente, integrada até pela igreja, que prega o sistema agrossilvopastoril como salvação dos produtores, isolados dos grandes centros consumidores. Nesse modelo, o boi pode ser criado em meio a árvores, como o desejado eucalipto.

Pecuária, Coxim tem, e o cultivo de eucalipto entrou com força no rol produtivo. Por enquanto, a economia da cidade é dependente do funcionalismo público e dos aposentados. Nesse cenário, parecido com o de Três Lagoas no passado, floresce o sonho de seguir os passos da cidade líder em exportações. Para isso, a prefeitura mira nas florestas plantadas. “Estamos fazendo estudo de implantação de unidade de transformação do eucalipto”, conta a prefeita Dinalva Mourão (PMDB). Para a administradora, é possível ser um polo de eucalipto em dez anos. Ela pediu ao Governo do Estado que direcione para o Norte empresas de papel e celulose interessadas em instalar-se em MS. Até agora, não há nada concreto.

Hoje, cerca de 20 produzem eucalipto na cidade, segundo gerente do escritório local da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer), o engenheiro agrônomo Oscar Serrou Camy Júnior. Porções de terra às margens da BR-359 abrigam maciços florestais de mais de mil hectares. Apesar de pobre em nutrientes, o arenoso solo da região tem, segundo o gerente, boa profundidade para receber as mudas de eucalipto.

O ex-prefeito e engenheiro agrônomo Moacir Kohl é dono da terceira maior área de cultivo da planta (500 hectares). Em 1997, eram 18 hectares. “A atividade é rentável, mesmo em terra ruim”, avalia. “O custo aumenta um pouco, mas não se compara ao boi em rentabilidade”, diz Kohl, que abriu viveiro para vender mudas de eucalipto.
O diretor da Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores e Consumidores de Florestas Plantadas (Reflore), Dito Mário, acredita que 70% do desenvolvimento florestal do Estado se dará na região Leste, onde está  Três Lagoas. Portanto, Coxim e suas vizinhas ficarão de fora, pelo menos por enquanto. “Hoje, é mais factível que elas invistam em seringueiras, que geram mais empregos e renda”, recomenda .

A logística vai continuar problemática, mesmo com a nova via. “A probabilidade de uma empresa de papel e celulose se instalar em alguma das cidades do Norte é zero. Se o empresário pode pagar entre 20 e 25 dólares para transportar a partir de Três Lagoas, que está quase dentro de São Paulo, porque ele vai querer buscar de tão longe?”, questiona. O diretor enfatiza que “hoje é assim, mas em cinco ou dez anos, a coisa pode mudar”.

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