Terça, 21 de Novembro de 2017

Páscoa

2 ABR 2010Por 21h:17

Anualmente celebramos a páscoa e não raro passamos indiferentes pela data. Para alguns, páscoa significa feriado prolongado para viagens e pescaria. Para outros, época de colocar o sono em dia. Alguns adultos e a maioria da criançada se deliciam com chocolate e muito poucos meditam no real significado do dia. A população em geral celebra a páscoa com ovos de chocolate e coelhinhos que transmitem a ideia de fertilidade e é impositiva a compra das guloseimas porque é assim que a mídia ensina e doutrina.

Páscoa significa liberdade. Historicamente é libertação de um povo que foi escravo na terra do Egito por 430 anos.

Escravo é todo aquele que não tem vontade própria. O seu prazer é do seu proprietário. As suas ideias estão moldadas por um horizonte estreito. As suas perspectivas resumem-se às necessidades básicas. Não há identidade com a terra e a sua cultura está contaminada pelos interesses dos dominadores. A sua força é requisitada pelo sistema opressor para construir em favor do tirano. As suas datas históricas não têm alento e as suas celebrações não passam de meras lembranças sem poder de influência no futuro das gerações vindouras. Ser escravo é não ter entusiasmo para planejar, sonhos para se motivar, esperança para viver e futuro para acreditar. Ser escravo é viver nas trevas. É estar na escuridão individual, familiar, social, religiosa, econômica e política. Escravidão impede a visão, inteligência e criatividade. É preciso estar livre para crescer e progredir.

Arão e Moisés, emissários de Deus, disseram a um Faraó: "Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto". Festa e celebração só acontecem em liberdade total. O povo hebreu era escravo em terra estranha e distante. No entanto podemos ser escravos em nosso próprio território. Escravo do sistema social impositivo de padrões e condutas que mais deturpam costumes do que constroem valores. Esse sistema é protegido e alimentado pela força política e econômica, tutelado pela religião hegemônica e pelo poderio da teologia da prosperidade apregoado pelo grupo pentecostal emergente. É um enquadramento hermeticamente fechado e com isso domina-se qualquer pensamento diferente que possa desestabilizar socialmente a turba. Todos ficam satisfeitos e felizes, reino, faraós e escravos. Este é o cenário moderno.

O cenário da páscoa primitiva era composto pela promessa da terra da liberdade, pelas lutas para se conquistar a terra, pelo deserto e seus perigos, mar vermelho, Egito, Faraó e principalmente, pelo tempo que levaria para se alcançar o alvo. Esta é a síntese da existência humana. Ao nascer estamos temporariamente seguros. Crescemos e aprendemos que temos que tomar decisões e agir. É preciso se movimentar. Planejamos a viagem e temos que enfrentar o deserto existencial. Nesse trajeto passamos por experiências agradáveis e tristes, provações, angústias, decisões difíceis e vitais. Todos os acontecimentos nos influenciarão de alguma forma e forjarão o nosso caráter e compreensão de toda a essência existencial. É preciso passar pelo fogo para se adquirir a têmpera do aço e a pureza do ouro. Toda e qualquer promessa de facilitação e favorecimento é prejudicial à formação de um povo ou indivíduo. As conquistas após a obtenção do objeto têm que, obrigatoriamente, adicionar o imponderável expresso pela modificação e lapidação do caráter. Assim formaremos uma nação com propósitos definidos e consistentes e sobretudo com projeto definido. É isso que você tem percebido em relação às forças dominantes neste País? Parece que não. Estamos oprimidos por uma carga tributária mastodôntica, sem representatividade política porque os nossos políticos estão hierarquicamente abaixo do interesse capitalista, sem segurança, saúde e justiça. Há no ar uma falsa sensação de autonomia e liberdade porque podemos comprar chocolate, satisfazer os nossos desejos e deixar de lado as situações que nos inquietam e faz sofrer.

Não se esqueça que Páscoa é libertação. Todos os sofrimentos consequentes à busca da liberdade ainda são melhores do que a segurança escravagista de Faraó. Liberte-se do Faraó e do Egito que há dentro de cada um de nós. Você pode idealizar a sua terra prometida e declarar a sua páscoa. Espiritualmente, páscoa é o sacrifício vicário de Jesus Cristo, humanamente é a sua liberdade em busca das realizações e valores que dão satisfação, mesmo que isso seja contra o sistema dominante e requeira muita luta e sofrimento. Páscoa é alegria, mesmo que seja no deserto. Feliz Páscoa e votos de liberdade!!.

LUIZ OVANDO, Médico e Professor de Medicina.

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