Sábado, 18 de Novembro de 2017

Para inventar moda

13 JUL 2010Por 21h:13
Arcângela Mota, TV Press  

Novelas costumam ditar moda. Seja em  comportamento, vocabulário e, principalmente, em  figurino. A cada produção que entra no ar, o  visual dos personagens pode se transformar em uma  atração à parte. Tanto que, todo mês, a Central  de Atendimento ao Telespectador – CAT –, da  Globo, recebe milhares de ligações de pessoas em  busca de roupas, cosméticos e acessórios vistos  em cena. E incluir um produto na lista dos mais procurados é ambição dos figurinistas, que passam meses no garimpo de itens que possam cair no  gosto do público e virar tendências. “Sempre  imagino o que pode virar moda antes de começar cada trabalho. Acho que é uma forma carinhosa de agradar ao telespectador. E acredito que já tenho  um faro bem aguçado para isso”, afirma a  figurinista Marília Carneiro, que trabalha na  Globo desde 1973 e é a responsável pelo figurino  de “Ti ti ti”, próxima novela das sete da  emissora, que aborda, exatamente, o mundo da moda.        
E a preocupação em emplacar modelos ou  estilos começa junto com as pesquisas para compor  os figurinos da trama. O diretor de figurino da  Record, Cláudio Carpenter, conta que, antes de  cada novela, faz questão de pesquisar as  tendências que estão em maior evidência, de forma  a criar o visual dos personagens em harmonia com  elas. “Inevitavelmente algo sempre cai no gosto  do público. Agora, com toda a facilidade  proporcionada pela internet, chega a ser mais  fácil prever algumas tendências”, considera o  figurinista, destacando que muitas vezes o  profissional tem de abrir mão do bom gosto em  função de alguns personagens. “Você sempre tem de  respeitar a criação do autor, fazendo algo  condizente com o personagem. Às vezes tem de  deixar o ego de lado e fazer algo mais cafona”, defende.
Para atrair os olhares dos  telespectadores, as equipes de figurinistas  costumam sair para garimpar cuidadosamente os  produtos. E foi Marília Carneiro quem começou a  fazer isso em 1973, quando passou a comprar peças  prontas para a novela “Os ossos do Barão”,  iniciativa que lhe rendeu na época o título de “sacoleira”. Tudo porque, até então, todo o  figurino dos personagens era produzido pela  Globo. Hoje em dia, a tática é usada por todos os  figurinistas, que saem em busca de peças novas  para se diferenciar em suas novelas. A equipe de  “Passione”, por exemplo, – que atualmente lidera  a lista da CAT com 16 entre os 30 produtos mais  procurados – viajou por várias regiões do Brasil  para trazer roupas e acessórios originais. “A  gente faz uma novela atrás da outra e todo mundo  acaba comprando nas mesmas lojas. Fica tudo com a  mesma cara. Nós buscamos ver coisas novas,  descobrir peças que ainda não chegaram à tevê”,  explica Flávia Azevedo, integrante do núcleo de figurinistas de “Passione”.       
 O sucesso dos produtos nas novelas é tanto  que muitos deles chegam a ser comercializados  pela Globo Marcas, que oferece roupas, acessórios  e objetos dos mais diversos tipos pela internet.  Mas o figurinista Lessa de Lacerda, que trabalha  há 30 anos na Globo e cuidou do visual de novelas  como “Tieta”, “Vamp” e “Quatro por quatro”,  afirma que o sucesso dos figurinos vale apenas  como reconhecimento artístico. E ressalta que,  com exceção dos casos de “merchandising”, o  trabalho dos figurinistas é sempre independente  do departamento comercial. “Não há cobrança para  que os produtos sejam aceitos pelo telespectador,  até porque eu não ganho nada quando isso  acontece. Minha maior preocupação é vestir o  personagem de acordo com o perfil dele. Mas é  sempre bom ver seu trabalho reconhecido”, conta.        
O interesse das empresas em ter sua marca  nas novelas, por sua vez, acaba facilitando o  trabalho dos figurinistas, que dispõem de uma  oferta de produtos cada vez maior. “Não há mídia  nenhuma que se compare a uma novela. A tevê tem  uma amplitude que supera qualquer editorial de  jornal ou revista”, analisa Sônia Soares, que fez  sucesso na CAT com o visual da desbocada Copélia,  de Arlete Salles, em “Toma lá, dá cá”. No  entanto, em outras ocasiões, a repercussão da  tevê tem um lado negativo, já que muitas empresas  não querem ter sua imagem vinculada à alguns  tipos de personagens. Foi o que aconteceu em “A  lei e o crime” e “Bela, a feia”, ambas da Record,  quando várias marcas não quiseram ser associadas  a bandidos e a uma mulher feia. “Durante a  pré-produção, sempre oferecemos parcerias para  vestir os personagens. Nessas novelas foi mais  difícil porque as empresas achavam que poderiam  ofender os clientes”, explica Cláudio Carpenter.   
 Já em outras novelas, as empresas que têm  suas marcas expostas em personagens dentro dos  padrões de beleza comemoram o retorno financeiro.  E a visibilidade proporcionada pela tevê não  demora a fazer efeito nas lojas. Foi o que  aconteceu com um colete de tricô roxo usado por  Clara, personagem de Mariana Ximenes em  “Passione”, que se tornou um dos itens mais  procurados na Globo e rapidamente se esgotou nas  vitrines da loja Anselmi. “Outros personagens já  usaram nossas peças, mas na Mariana o retorno foi  muito maior. Tivemos muita reposição na fábrica.  Aparecer na novela funciona bastante”, vibra  Kátia Boeni, integrante da equipe de criação da Anselmi. 

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